terça-feira, 6 de setembro de 2016


Eu não tinha nada de felino, tu sabias
que eu não tinha nada de felino.
Nenhum de nós se admirou quando
medi mal a distância e falhei o salto.
Enquanto ia no ar parecia que era
um salto bom, porém houve qualquer
coisa que correu mal e caí com estrondo
no chão. Ninguém riu. Não era caso
para rir. Grande ilusão ir pelo ar a pensar
que o salto podia ser bom, sem eu ter
nada de felino, sem nunca ter treinado,
sem fazer sequer aquecimento, sem
olho para medir distâncias. Saber medir
distâncias é uma coisa muito importante,
pode falhar-se a vida por milímetros.

Helder Moura Pereira

sábado, 11 de junho de 2016

Constatações


1

É mentira que o tempo
ponha alguém no seu lugar.
Quando muito outorga espaço e alma a quem não merece.
É implacável, é certo,
mas erra o tiro em cada disparo.
Treme-lhe o pulso.
Paco Moral

domingo, 29 de maio de 2016

Entre tus brazos

Dos cuerpos frente a frente
son a veces dos olas
y la noche es océano.
Dos cuerpos frente a frente
son a veces dos piedras
y la noche desierto.
Dos cuerpos frente a frente
son a veces raíces
en la noche enlazadas.
Dos cuerpos frente a frente
son a veces navajas
y la noche relámpago.
Dos cuerpos frente a frente
son dos astros que caen
en un cielo vacío.
Octávio Paz

sábado, 21 de maio de 2016

Arrefece o triste sol

Arrefece triste o sol que me incendiou
os ossos. Entre os amantes
que foram leves e quase luminosos
cai subitamente uma pedra
que num vidro invisível havia.
Ao peso do silêncio
os amantes sangram,
sangram as palavras que não disseram
quando, longe dos pequenos sismos do corpo,
em fragmentos de pó
explodiam.


Casimiro de Brito

segunda-feira, 11 de abril de 2016

El amor está

El amor está en lo que tendemos
(puentes, palabras ).
El amor está en todo lo que izamos
(risas, banderas).
Y en lo que combatimos
(noche, vacío)
por verdadero amor.
El amor está en cuanto levantamos
(torres, promesas).
En cuanto recogemos y sembramos
(hijos, futuro).
Y en las ruinas de lo que abatimos
(desposesión, mentira)
por verdadero amor.

José Ángel Valente

sexta-feira, 11 de março de 2016

Quero a noite completa

Quero a Noite completa, desumana.
A Noite anterior. A noite virgem
de mim. A Noite pura. Quero a Noite,
aonde é impossível encontrar-te.

Que não há rio nem rua nem montanha
nem floresta nem prado nem jardim
nem pensamento algum nem livro algum
em que não me apareças, sorridente.

Sebastião da Gama, Pelo sonho é que vamos

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

É o frio

É o frio que nos tolhe ao domingo
no Inverno, quando mais rareia
a esperança. São certas fixações
da consciência, coisas que andam
pela casa à procura de um lugar
e entram clandestinas no poema.
São os envelopes da companhia
da água, a faca suja de manteiga
na toalha, esse trilho que deixamos
atrás de nós e se decifra sem esforço
nem proveito. É a espera
e a demora. São as ruas sossegadas
à hora do telejornal e os talheres
da vizinhança a retinir. É a deriva
nocturna da memória: é o medo
de termos perdido sem querer
a nossa vez.
Rui Pires Cabral

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Arrebatada

Eu não quero a ternura
quero o fogo
a chama da loucura desatada
quero a febre dos sentidos
e o desejo
o tumulto da paixão arrebatada
Eu não quero só o olhar
quero o corpo
abismo de navalha que nos mata
quero o cume da avidez
e do delírio
sequiosa faminta apaixonada
Eu não quero o deleite
do amor
quero tudo o que é voraz
Eu quero a lava

Maria Teresa Horta

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Chega a ter gosto

Chega a ter gosto
a chuva
vista dos cafés
caindo sobre as estátuas
e a nostalgia
chega a ser morna
com fumo e álcool
na garganta
Até os homens
passarem junto aos vidros
Reais Molhados
Sem emoções instruídas
Pensando em remédios
e prestações
grisalhos
sem serem velhos
e falando sós
sem serem loucos
António Reis, Poemas quotidianos

Como as gaivotas

Miguelanxo Prado
Como as gaivotas
Atravessando o temporal
aprendemos a planar.
Sobrevoar a vida
para avançar usando
a violência do vento.
Tal como as gaivotas.

Joan Margarit, No estaba lejos, no era difícil

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Não sei para que lado da noite me hei-de virar

(Erica Hopper)

Não sei para que lado da noite me hei-de virar
onde esconder de ti o rio de fogo das lágrimas
quase a transbordar e acendo mais um cigarro
e falo atabalhoadamente de um futuro qualquer

e suspiro de alívio porque não ouves o que digo
ou se calhar também não sabes onde te esconderes
esperamos que se ilumine o lado certo da noite
é quando se esgotam as palavras e os silêncios
e a minha mão procura a tua que a recebe
e a noite se unifica e todos os rios secam
menos um por onde navegamos
para abolir a noite.
Carlos Alberto Machado

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Gosto dos amigos


Gosto dos amigos
Que modelam a vida
Sem interferir muito;
Os que apenas circulam
No hálito da fala
E apõem, de leve,
Um desenho às coisas.
Mas, porque há espaços desiguais
Entre quem são
E quem eles me parecem,
O meu agrado inclina-se
Para o mais reconciliado,
Ao acordar,
Com a sua última fraqueza;
O que menos se preside à vida
E, à nossa, preside
Deixando que o consuma
O núcleo incandescente
Dum silêncio votivo
De que um fumo de incenso
Nos liberta.


Sebastião Alba

terça-feira, 17 de novembro de 2015

En este momento

Pienso que en este momento
tal vez nadie en el universo piensa en mí,
que solo yo me pienso,
y si ahora muriese,
nadie, ni yo, me pensaría.
Y aquí empieza el abismo,
como cuando me duermo.
Soy mi propio sostén y me lo quito.
Contribuyo a tapizar de ausencia todo.
Tal vez sea por esto
que pensar en un hombre
se parece a salvarlo.
Roberto Juarroz, Poesía Vertical I

sábado, 17 de outubro de 2015

O caminho

O caminho a percorrer no teu espaço é talvez uma maneira
de resistir à desumanidade que nos rodeia, a tudo o que é opaco
e doloroso.
Falo-te, invento-te na noite perfumada e tudo isto não acontece
por acaso.
Pressinto-te por detrás do silêncio. E existo.
Mas de que negras raízes é feita a árvore do teu corpo?


Maria Graciete Besse, Transparências

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Caminho sem pés e sem sonhos

Caminho sem pés e sem sonhos

só com a respiração e a cadência
da muda passagem dos sopros
caminho como um remo que se afunda.

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes
para que a elevação e a profundidade se conjuguem.
avanço sem jugo e ando longe

de caminhar sobre as águas do céu.

Daniel Faria