quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A noite em que nos sentámos no muro


A noite em que nos sentámos no muro
entre os quintais. O mundo estava aninhado
sob o tecto dos teus sentidos, recuava
à posição pouco óbvia
de um jardim.

Vinhas com o tempo certo sobre
as silvas, já punhas o amor a arder
nos canteiros. Não valia a pena explicar
uma coisa tão rara.

Rui Pires Cabral

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Pórtico

Com os meus amigos aprendi que o que dói às aves
Não é o serem atingidas, mas que,
Uma vez atingidas,
O caçador não repare na sua queda
Daniel Faria, A casa dos Ceifeiros

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Preferia não saber das ruas

Preferia não saber das ruas
onde posso desfazer-me do desejo.
Ir ao encontro das estátuas
para me refazer do medo.

A noite é pequena e cabe
num gesto atirado ao ar
quando se parte sem olhar para trás,
nem necessidade de confirmar amor algum.

Tirei tudo dos bolsos.
Toquei o rosto para sentir a temperatura.
Não estou morta nem vou morrer.

De regresso a casa, a única certeza:
que a manhã virá para reflectir a palidez,
a habitual dificuldade em existir cedo.

Marta Chaves, Pedra de Lume

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

A tarde despedaçou-se

A tarde despedaçou-se
e nunca houve outro anseio
senão esta claridade sem sol,
a lenta supressão de uma morada.
Espiamos as naves que se soletram
a ouvido nenhum,
tocando um do outro
os dedos mais
sinceros.

Estamos prontos para singrar
na noite do nosso
desassossego.
Vasco Gato, Napule

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Eu sei, eu sei


É o amor, eu sei, eu sei,
a fome e a alma de todas as coisas,
mas há dias, eu juro, em que
luto com todas as minhas forças,
para que não seja a raiva,
a razão de todos os actos importantes.


Pedro Santo Tirso

Para que as coisas resultem


Para que as coisas resultem,
a nossa escuridão tem de ficar
bem clara.

Promete-me
que a tudo o que o amor possa ter de sujo
brindaremos com copos de cristal.

Ana Tecedeiro

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Canção dos romances perdidos

Oh! o silêncio das salas de espera
Onde esses pobres guarda-chuvas lentamente escorrem...
O silêncio das salas de espera
E aquela última estrela...

Aquela última estrela
Que bale, bale, bale,
Perdida na enchente da luz...

Aquela última estrela
E, na parede, esses quadrados lívidos,
De onde fugiram os retratos...

De onde fugiram todos os retratos...

E esta minha ternura,
Meu Deus,
Oh! toda esta minha ternura inútil, desaproveitada!...


Mario Quintana

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Tempo fluvial


Se eu definisse o tempo como um rio,
a comparação levar-me-ia a tirar-te
de dentro da sua água, e a inventar-te
uma casa. Poria uma escada encostada
à parede, e sentar-te-ias num dos seus
degraus, lendo o livro da vida. Dir-te-ia:
«Não te apresses: também a água deste
rio é vagarosa, como o tempo que os
teus dedos suspendem, antes de virar
cada página.» Passam as nuvens no céu;
nascem e morrem as flores do campo;
partem e regressam as aves; e tu lês
o livro, como se o tempo tivesse parado,
e o rio não corresse pelos teus olhos.

Nuno Júdice

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Bem sabes que não sou capaz

Bem sabes que não sou capaz
de dizer adeus
porque o amor tem sempre
a impossibilidade
da despedida
por não haver nele
nenhuma forma de morrer
como a luz do crepúsculo
que quando aqui se apaga
é para fazer dia noutro lugar.

E por isso não julgues
que tenha perdido
o norte
dentro da estátua de mármore
em que me transformaste
ao sul
dos teus olhos.
Como uma ostra no fundo do mar
vou depositando esta pérola no coração
para te deixar.

Luís Miguel Oliveira

e vinha a luz


e vinha a luz
e guardava-te
e eu guardava-te
também
em lugares mais seguros
que fotografias
ou poemas

gil t. sousa

domingo, 6 de novembro de 2016

Apanhei o cabelo

Apanhei o cabelo
Num rabo de cavalo
Agora a minha solidão
Vê-se melhor

Vê-se tão bem
como a minha face
E a minha face é
desassombrada
As sombras
Não são minhas

Adília Lopes

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Ofício de amar

já não necessito de ti 
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste 
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras 
                                             [galáxias, e 
                                             [o remorso 

um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio 
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração 
não, não preciso mais de mim 
possuo a doença dos espaços incomensuráveis 
e os secretos poços dos nómadas 

ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto 
deixei de estar disponível, perdoa-me 
se cultivo regularmente a saudade de meu próprio corpo 


Al Berto, O Medo

terça-feira, 6 de setembro de 2016


Eu não tinha nada de felino, tu sabias
que eu não tinha nada de felino.
Nenhum de nós se admirou quando
medi mal a distância e falhei o salto.
Enquanto ia no ar parecia que era
um salto bom, porém houve qualquer
coisa que correu mal e caí com estrondo
no chão. Ninguém riu. Não era caso
para rir. Grande ilusão ir pelo ar a pensar
que o salto podia ser bom, sem eu ter
nada de felino, sem nunca ter treinado,
sem fazer sequer aquecimento, sem
olho para medir distâncias. Saber medir
distâncias é uma coisa muito importante,
pode falhar-se a vida por milímetros.

Helder Moura Pereira

sábado, 11 de junho de 2016

Constatações


1

É mentira que o tempo
ponha alguém no seu lugar.
Quando muito outorga espaço e alma a quem não merece.
É implacável, é certo,
mas erra o tiro em cada disparo.
Treme-lhe o pulso.
Paco Moral

domingo, 29 de maio de 2016

Entre tus brazos

Dos cuerpos frente a frente
son a veces dos olas
y la noche es océano.
Dos cuerpos frente a frente
son a veces dos piedras
y la noche desierto.
Dos cuerpos frente a frente
son a veces raíces
en la noche enlazadas.
Dos cuerpos frente a frente
son a veces navajas
y la noche relámpago.
Dos cuerpos frente a frente
son dos astros que caen
en un cielo vacío.
Octávio Paz