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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A casa


Disse-te: uma casa.
Não falávamos há meses e isto
foi tudo o que te soube dizer:

uma casa, tenho uma casa.
Arrumei primeiro os discos, depois os filmes,
só então os livros, as loiças.
Como quem se abrigasse da chuva,
pendurei os primeiros quadros.
Quatro: estrada, mar, mulher, coração.
Começou a chover quando me perguntaste
se te convidava para jantar.
Era desnecessariamente Julho
e dentro de casa chovia tanto.

Disse-to, confesso, sem esperança
- apenas porque uma casa
é muito grande para guardar na boca.

Filipa Leal

domingo, 16 de novembro de 2014

Nesta brisa quase suave

Nesta brisa quase suave
de plantas já anoitecidas
quase te toco entre as regas,
e entristeço.
A tua ausência é tão real
como os vastos campos de girassóis
secos, envelhecidos, quase mortos.
Alugo a voz e a expressão
a par de todos os espaços
deste lugar que se inicia.
Tudo isto é simples:
tenho o coração desarrumado.
Vem.

Filipa Leal

terça-feira, 18 de março de 2014

Nos dias tristes não se fala de aves

Nos dias tristes não se fala de aves.
Liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.

Nos dias tristes é Inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento e diz-se
- bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso.
Nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração
e não fala connosco.

Filipa Leal, A cidade líquida e outras texturas