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terça-feira, 21 de setembro de 2010

Sábios como camelos (cont.)

Os camelos, porém, não tinham morrido. Presos uns aos outros por cordas, e conduzidos por um jovem pas¬tor, haviam sido arrastados pela tempestade de areia ate uma região remota do deserto. Durante muito tempo caminharam sem rumo, aos círculos, tentando encontrar uma referência qualquer, um sinal, que os voltasse a colocar no caminho certo. Por toda a parte era só areia, areia, e o ar seco e quente. À noite as estrelas quase se podiam tocar com os dedos.

Ao fim de quinze dias, vendo que os camelos iam morrer de fome, o jovem pastor deu-lhes alguns livros a comer. Comeram primeiro os livros transportados por Aba, ou seja, todos os títulos começados pela letra A. No dia seguinte comeram os livros de Baal. Trezentos e noventa e oito dias depois, quando tinham terminado de comer os livros de Zuzá, viram avançar ao, seu encontro um grupo de homens. Eram as tropas do grão-vizir. Conduzido a presença do grão-vizir o jovem guardador de camelos, explicou-lhe, chorando, o que tinha acontecido. Mas este não se comoveu:
- Eras tu o responsável pelos livros - disse -, assim, por cada livro destruído passarás um dia na prisão.
O guardador de camelos fez contas de cabeça, rapidamente, e percebeu que seriam muitos dias. Cada camelo carregava quatrocentos livros - então quatrocentos camelos transportavam cento e sessenta mil! Cento e sessenta mil dias são quatrocentos e quarenta e quatro anos. Muito antes disso morreria de velhice na cadeia. Dois soldados amarraram-lhe os braços atrás das costas. Já se preparavam para o levar preso, quando Aba, o camelo, se adiantou uns passos e pediu licença para falar:
- Não façais isso, meu senhor - disse Aba dirigindo-se ao grão-vizir - esse homem salvou-nos a vida. O grão-vizir olhou para ele espantado:
- Meu Deus! O camelo fala!...
- Falo sim, meu senhor - confirmou Aba, divertido com o incrédulo silêncio dos homens -. Os livros deram-nos a nós, camelos, a ciência da fala.

Explicou que, tendo comido os livros, os camelos haviam adquirido não apenas a capacidade de falar, mas também o conhecimento que estava em cada livro. Lentamente enumerou de A a Z os títulos que ele, Aba, sabia de cor. Cada camelo conhecia de memória quatrocentos títulos:
- Liberta esse homem - disse Aba -, e sempre que o desejares nós viremos até ao vosso palácio para contar histórias.
O grão-vizir concordou. Assim, a partir daquele dia, todas as tardes, um camelo subia até ao seu quarto para lhe contar uma história. Na Pérsia, naquela época, era habitual dizer-se de alguém que mostrasse grande inte¬ligência:
- Aquele homem e sábio como um camelo.
Isto foi há muito tempo. Mas há quem diga que, quando estão sozinhos, os camelos ainda conversam entre si.
Pode ser.

J. Eduardo Agualusa, Estranhões e Bizarrocos

sábado, 17 de julho de 2010

mais leituras

"In my younger and more vulnerable years my father gave some advice that I've been turning over in my mind ever since.
'Whenever you feel like criticizing anyone', he told me,' just remember that all the people in this world haven't had the advantages that you've had.'
(...) I'm inclined to reserve all de judgements, a habit that has opened up many curious nature to me and also made me a victim of not a few veteran bores."

F. Scott Fitzgerald, The Great Gatsby

terça-feira, 13 de julho de 2010

Leituras

"Já há algum tempo que não via um político de perto e esquecera-se do movimento dos olhos, da incansável busca de novos ouvintes ou opositores, da proximidade de qualquer figura de estatuto mais elevado, ou de qualquer outra hipótese importante que lhe pudesse escapar."

Ian McEwan, Amesterdão

sábado, 26 de junho de 2010

releituras

"(...) não creio que possamos conhecer alguém a fundo (...), pois os homens não são somente eles; são também a região onde nasceram, a quinta ou a casa da cidade onde aprenderam a andar, os brinquedos com que brincaram quando crianças, as lendas que ouviram dos mais velhos, a comida de que se alimentaram, as escolas que frequentaram, os desportos em que se exercitaram, os poetas que leram e o Deus em que acreditaram."

Somerset Maugham, O Fio da Navalha

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Envelhecer

Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o significado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso também é velhice. Quando já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer... Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque, por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes por que acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exactidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreeende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal... e isso é precisamente a velhice.



Sándor Márai, As Velas Ardem Até ao Fim

segunda-feira, 1 de março de 2010

(...) mientras la vida se retiraba de mí sin que yo supiera qué hacer para alcanzarla. Ya había perdido demasiada vida, y ni siquiera tenía el consuelo de algo o alguien se la hubiera llevado.

Tomás Eloy Martínez, El Cantor de Tango
Sou mulher e escrevo. Sou plebeia e sei ler. Nasci serva e sou livre. Vi na minha vida coisas maravilhosas . Fiz na minha vida coisas maravilhosas . Durante algum tempo, o mundo foi um milagre. Depois a escuridão voltou. A pena treme entre os meus dedos cada vez que o aríete investe contra a porta. Um sólido portão de metal e madeira que não tardará a despedaçar-se. Pesados e suados homens de ferro amontoam-se à entrada. Vêm buscar-nos. As Boas Mulheres rezam. Eu escrevo. É a minha maior vitória, a minha conquista, o dom de que me sinto mais orgulhosa; e embora as minhas palavras estejam a ser devoradas pelo grande silêncio, constituem hoje a minha única arma.

Rosa Montero, História do Rei Transparente

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Da Amizade

Nas ligações baseadas apenas num traço comum, basta precavermo-nos contra o que pode afectá-lo. Não me importa qual seja a religião do meu médico ou do meu advogado; tê-la em consideração não tem nada que ver com os serviços amistosos que eles me devem. Na relação que comigo estabelecem os meus servidores, procedo da mesma maneira. Pouco me importa saber se um lacaio que tenciono contratar é casto; cuido apenas de me informar se é diligente. (...) Não me ocupo de dizer o que se deve fazer no mundo - já há bastantes que o dizem - mas de dizer o que eu nele faço.

Mihi sic usus est; tibi, ut opus est facto, face.

[«É assim que eu procedo; tu, faz como achares melhor.» - Terêncio, Heautontimorumenos, I, 1, 80]

Montaigne, "I, 28, Da Amizade", Da Amizade e Outros Ensaios

Dos Livros

Se quando leio encontro dificuldades, não roo as unhas por isso: após duas ou três investidas, deixo-as onde estão. Se as ficasse a remoer, perder-me-ia nelas e perderia o meu tempo, pois tenho um espírito impulsivo. Aquilo que não vejo à primeira carga, ainda o menos vejo em me obstinando.

Montaigne, "II, 10, Dos Livros", Da Amizade e Outros Ensaios

sábado, 16 de janeiro de 2010

Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam, e nunca reconhecem quando encontram, daquelas que, se elas as reconhecessem, mesmo assim não as reconheceriam. Sofro a delicadeza dos meus sentimentos com uma atenção desdenhosa. Tenho todas as qualidades, pelas quais são admirados os poetas românticos, mesmo aquela falta dessas qualidades, pela qual se é realmente poeta romântico. Encontro-me descrito (em parte) em vários romances como protagonista de vários enredos; mas o essencial da minha vida, como da minha alma, é não ser nunca protagonista.

Pessoa-Bernardo Soares, O Livro do Desassossego
Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. (...) Sento-me à porta e embebo os meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.

Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também.

Pessoa-Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Sempre foi assim...

- Sempre foi assim, mas esquecemo-nos. O mundo nunca soube tanto acerca de si próprio e da sua natureza como agora, mas não lhe serve de nada. Repare, sempre houve maremotos. O que acontece é que antes não pretendíamos ter hotéis de luxo na primeira linha da praia... O homem cria eufemismos e cortinas de fumo para negar as leis naturais. Também para negar a condição infame que lhe é própria. E cada acordar custa-lhe os duzentos mortos de um avião que cai, os duzentos mil de um tsunami ou o milhão de uma guerra civil.
Arturo Pérez-Reverte, O Pintor de Batalhas

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Dali avistámos homens que andavam pela praia, obra de sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos, por chegarem primeiro. (...)
Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijamente sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram.
Ali não pôde deles haver fala, nem entendimento de proveito, por o mar quebrar na costa. Dou-lhes somente um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça e um sombreiro preto. Um deles deu-lhe um sombreiro de penas de ave compridas, com uma copazinha pequena de penas vermelhas e pardas como de papagaio; e outro deu-lhe um ramal grande de continhas brancas, miúdas (...).
A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andavam nus, sem cobertura alguma. Não fazem o menor caso de encobrir ou mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto.
Carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei D. Manuel sobre o achamento do Brasil, Europa-América

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

ser outro

É a maior tragédia com que o destino pode castigar o homem. O desejo de ser outro, diferente daquilo que somos: não pode arder desejo mais doloroso no coração humano. Porque não é possível suportar a vida de outra maneira, apenas sabendo que nos conformamos com aquilo que significamos para nós próprios e para o mundo. (...) Temos de suportar que os nossos desejos não tenham repercussão no mundo. Temos de suportar que as pessoas que nos amam não nos amem ou que não nos amem como gostaríamos. Temos de suportar a traição e a infidelidade, e o que é o mais difícil entre todas as tarefas humanas, temos de suportar a superioridade moral ou intelectual de uma outra pessoa.

Sándor Márai, As velas ardem até ao fim

sábado, 21 de fevereiro de 2009

memórias da infância

De vez em quando, lendo as autobiografias de alguns escritores, pasmo com a clareza cristalina com que recordam a sua infância até ao mais pequeno pormenor. Sobretudo os russos, tão evocativos de uma infância luminosa que parece sempre a mesma, cheia de samovares que cintilam na plácida penumbra dos salões e de jardins esplêndidos de folhas sussurrantes sob o sol imóvel dos Verões. São tão paradisíacas (...) que uma pessoa não pode deixar de as julgar uma mera recriação, um mito, uma invenção.

Rosa Montero, A Louca da Casa

autodiegese

Sempre achei que a narrativa é a arte primordial dos humanos. Para ser, temos de nos narrar e nessa história de nós mesmos há muitíssima história: mentimos a nós próprios, imaginamo-nos, enganamo-nos. (...) Por conseguinte, poderíamos deduzir que os humanos são, acima de tudo, romancistas, autores de um único romance (...).

Rosa Montero, A Louca da Casa

terça-feira, 13 de maio de 2008


Tras sobrevivir a miles de páginas sobre el tema, empezaba a tener la impresión de que cientos de creencias religiosas catalogadas a lo largo de la historia de la letra impresa resultaban extraordinariamente similares entre sí. (...) Mitos e leyendas, bien sobre divindades o sobre la formación y la historia de los pueblos y razas, empezaron a parecerme imagénes de rompecabezas vagamente diferenciadas y construidas siempre con las mismas piezas, aunque en diferente orden.


Todos ellos son relatos con personages que deben enfrentarse a la vida y superar obstáculos, figuras que se embarcan en un viaje de enriquecimento espiritual a través de peripecias y revelaciones. Todos los libros sagrados son, ante todo, grandes historias cuyas tramas abordan los aspectos básicos de la naturaleza humana y los situán en un contexto moral y un marco de dogmas sobrenaturales determinados.


Carlos Ruiz Zafón, El Juego del Ángel