terça-feira, 28 de julho de 2020

Coisas

Sabe-me a pouco
este rumor de coisas pequenas
e simples.
O volume do barro,
o ciciar do vento nas folhas rubras,
a concavidade das grutas da falésia
onde o mar se demora.
As minhas mãos
não cabem na brancura
da nudez destas coisas que por serem ingénuas
só se chamam
coisas.


Lília Tavares

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Temos de combinar

Temos de combinar,
um café, um jantar, um cinema,
quem sabe uma tarde cinzenta,
mais o tédio do que a chuva,
uma pensão de subúrbios
pés descalços pela alcatifa puída,
lençóis supostamente de seda,
cerveja em vez de um vinho
porque o vinho é demasiado mau,
um chocolate para dois,
dois cafés, dois cigarros,
sair em carros separados.
Temos de combinar,
já servimos um ao outro de consolo,
já soprámos as velas do bolo
e bebemos champanhe
e cantámos canções.
Temos de combinar,
pois a vida é tão breve,
os dias voam,
as rugas magoam
e os iogurtes no frigorífico
ficam fora de prazo,
não se podem colher.

Raquel Serejo Martins

Lo que pasa

Yo te entregué mi sangre, mis sonidos,
mis manos, mi cabeza,
y lo que es más, mi soledad, la gran señora,
como un día de mayo dulcísimo de otoño,
y lo que es más aún, todo mi olvido
para que lo deshagas y dures en la noche,
en la tormenta, en la desgracia,
y más aún, te di mi muerte,
veré subir tu rostro entre el oleaje de las sombras,
y aún no puedo abarcarte, sigues creciendo como un fuego,
y me destruyes, me construyes, eres oscura como la luz.

Juan Gelman

domingo, 28 de junho de 2020

Soy pan, soy paz, Soy más

Nunca fui tan hermosa

Nunca fui tan hermosa
como a los cuarenta
cuando el mundo comenzó a apagarse
como si alguien hubiera dictado
el final de una fiesta.
Ah, qué precioso es el fin de las cosas,
todo el cuerpo extendido hacia el disfrute
de los últimos instantes.
Es
como el final del deseo,
ese momento en que no importa
si sos vos
o no sos,
sólo sucede estar allí,
en un cuerpo
habitando la cueva de la sangre,
el corazón
en un pulso feroz latiendo,
latiendo.

Un animal
irguiéndose en sus pies
es siempre majestuoso.

Mariana Finochietto (Argentina)

quinta-feira, 28 de maio de 2020

São os rios

Somos o tempo. Somos a famosa
parábola de Heráclito o Obscuro.
Somos a água, não o diamante duro,
a que se perde, não a que repousa.
Somos o rio e somos aquele grego
que se olha no rio. O seu semblante
muda na água da mutável imagem,
no cristal que muda como o fogo.
Somos o vão rio determinado,
rumo ao seu mar, pela sombra cercado.
Tudo nos disse adeus, tudo nos deixa.
A memória não cunha sua moeda.
E contudo há algo que queda
e contudo há algo que se queixa.

Jorge Luis Borges, Os Conjurados

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

ninguém conhece o infinito


A culpa é tua se dizes sempre
o mesmo nome
se tens sempre a mesma idade
e a mesma casa, se quando
revelas a tua identidade
é impossível que o céu te expluda
e que te acudas de incertezas
e de novos buracos.
A culpa é tua se ainda não
morreste, se nunca te
atrincheiraste à espera
de uma bomba que te mude os olhos
se nasces sempre no mesmo dia.
Não te aflijas.
Estás sempre a tempo de não
dormires na mesma posição
(com a mão aberta em esmola)

Também me custa
sobreviver a estes dias
mas o que ainda não chegou
é infinito.

Cláudia R. Sampaio

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

No te rindas

No te rindas, por favor no cedas,
aunque el frío queme,
Aunque el miedo muerda,
Aunque el sol se ponga y se calle el viento,
Aún hay fuego en tu alma,
Aún hay vida en tus sueños
Porque cada día es un comienzo nuevo,
Porque esta es la hora y el mejor momento.
Porque no estás solo, porque yo te quiero.
Mario Benedetti

domingo, 14 de outubro de 2018

Lembra-me um livro que li*

Os vizinhos da esquerda, ar reformado
sobre um telhado entre paredes exteriores.
À direita, uma mulher que fala com a televisão
e todas as noites adormece antes das dez.
Debaixo: homem que acorda assustado
se algures alguém abre uma torneira.
Por cima: pombos. De vez em quando uma andorinha.
Às vezes estrelas. Mas mais frequentemente
a trovoada me visita.

Ingmar Heytze


* Debaixo de algum céu, do Nuno Camarneiro

O poema surripiei-o aqui.

sábado, 6 de outubro de 2018

Milagre


Não sei se é trágico
Morrer d’ amor. Sei que é

Possível. Eu já morri.

Mas também por amor,
Milagre maior
Renasci.

Katia Andrade Simões, O Lugar Alado

sábado, 2 de junho de 2018

O fato novo do imperador



Tenho 31 anos e estou cansado.
Todos os sítios me vão parecendo, finalmente,
igualmente maus.
Todas as pessoas, incluindo as que gostam de mim,
insuportáveis.
Não encontro sentido nem para o que faço
nem para as coisas que deixo por fazer.
Olho para os outros
com a absoluta certeza de quem vê
não semelhantes,
serenos, resignados, envilecidos extraterrestres.
Olho para mim
e sinto-me como se não tivesse outros com quem partilhar.
Para onde quer que eu olhe,
a insuportável mentira que faz ninho, germina, destila
este tempo, este país, este modo de viver
a que chamam
progressista, tolerante, solidário, democrático,
avançado, europeu, e melhor e melhor
que todos os existidos,
que todos os possíveis.
Este modo de viver
onde falta tudo o que foi nomeado.
Que desfez a classe trabalhadora sem uma única bala,
que encarcerou as consciências sem uma única grade,
que me afasta sem um único cassetete,
que me exclui sem um ferro candente,
sem sequer uma estrela amarela na lapela.

Este tempo
de fatos novos,
de Imperadores.


Antonio Orihuela

domingo, 18 de março de 2018

Paraíso



Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.

                     David Mourão-Ferreira, in Infinito Pessoal

terça-feira, 13 de março de 2018

o algo así


dentro de la lluvia suena siempre una canción
daría todo mi dinero
por un solo tango
                                   o algo así

el amor es inútil o no es
ahora ya no importa

después deja de llover
la melodía sobrevive en la luz oxidada
y comienza a hacer frío en la palabra distancia

sábado, 6 de janeiro de 2018

Segunda voz


Pintura de David Cunningham
Olha à tua volta. O que é que falta aqui?
Está uma belíssima noite, pelos padrões do Alasca,
a cidade inteira enrolada a um canto da névoa
e a sala de uma casa emprestada a transformar-se
num mecanismo adicional de solidão:
retratos e livros misturados nas estantes,
memórias alheias de que não tiras proveito.
Quem foi o tolo que disse que a ausência
faz crescer o afecto? Guarda a tua raiva,
é um recurso precioso. Não te livras do turno
da noite, dos pensamentos neuróticos da tua cabeça,
uma espécie de monólogo das aulas de teatro. Mas
quem sabe o que o passado te reserva para esta insónia?
Pode ser whisky, ou preferes algo mais frutado?
Vítor Nogueira

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Falhámos tudo

falhámos tudo: entregámos
os livros ao sepulcro
das estantes, ao amor
demos um colo de horas
certas, deixámos de abrir
janelas para cheirar a noite.
já nada nos lembra
que o poema só se forma
no fio da navalha.
Renata Correia Botelho