segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Chega a ter gosto

Chega a ter gosto
a chuva
vista dos cafés
caindo sobre as estátuas
e a nostalgia
chega a ser morna
com fumo e álcool
na garganta
Até os homens
passarem junto aos vidros
Reais Molhados
Sem emoções instruídas
Pensando em remédios
e prestações
grisalhos
sem serem velhos
e falando sós
sem serem loucos
António Reis, Poemas quotidianos

Como as gaivotas

Miguelanxo Prado
Como as gaivotas
Atravessando o temporal
aprendemos a planar.
Sobrevoar a vida
para avançar usando
a violência do vento.
Tal como as gaivotas.

Joan Margarit, No estaba lejos, no era difícil

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Não sei para que lado da noite me hei-de virar

(Erica Hopper)

Não sei para que lado da noite me hei-de virar
onde esconder de ti o rio de fogo das lágrimas
quase a transbordar e acendo mais um cigarro
e falo atabalhoadamente de um futuro qualquer

e suspiro de alívio porque não ouves o que digo
ou se calhar também não sabes onde te esconderes
esperamos que se ilumine o lado certo da noite
é quando se esgotam as palavras e os silêncios
e a minha mão procura a tua que a recebe
e a noite se unifica e todos os rios secam
menos um por onde navegamos
para abolir a noite.
Carlos Alberto Machado

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Gosto dos amigos


Gosto dos amigos
Que modelam a vida
Sem interferir muito;
Os que apenas circulam
No hálito da fala
E apõem, de leve,
Um desenho às coisas.
Mas, porque há espaços desiguais
Entre quem são
E quem eles me parecem,
O meu agrado inclina-se
Para o mais reconciliado,
Ao acordar,
Com a sua última fraqueza;
O que menos se preside à vida
E, à nossa, preside
Deixando que o consuma
O núcleo incandescente
Dum silêncio votivo
De que um fumo de incenso
Nos liberta.


Sebastião Alba

terça-feira, 17 de novembro de 2015

En este momento

Pienso que en este momento
tal vez nadie en el universo piensa en mí,
que solo yo me pienso,
y si ahora muriese,
nadie, ni yo, me pensaría.
Y aquí empieza el abismo,
como cuando me duermo.
Soy mi propio sostén y me lo quito.
Contribuyo a tapizar de ausencia todo.
Tal vez sea por esto
que pensar en un hombre
se parece a salvarlo.
Roberto Juarroz, Poesía Vertical I

sábado, 17 de outubro de 2015

O caminho

O caminho a percorrer no teu espaço é talvez uma maneira
de resistir à desumanidade que nos rodeia, a tudo o que é opaco
e doloroso.
Falo-te, invento-te na noite perfumada e tudo isto não acontece
por acaso.
Pressinto-te por detrás do silêncio. E existo.
Mas de que negras raízes é feita a árvore do teu corpo?


Maria Graciete Besse, Transparências

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Caminho sem pés e sem sonhos

Caminho sem pés e sem sonhos

só com a respiração e a cadência
da muda passagem dos sopros
caminho como um remo que se afunda.

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes
para que a elevação e a profundidade se conjuguem.
avanço sem jugo e ando longe

de caminhar sobre as águas do céu.

Daniel Faria

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Comecei dezenas de histórias

comecei dezenas de histórias
e não terminei nenhuma,
não sei para onde vão as minhas personagens
porque começam a falar
e logo se calam.
no papel sucede-me o mesmo que fora dele:
a minha vida é um punhado de começos
suspensos

Myriam Reys


Surripiado aqui

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

El sueño


Si el sueño fuera (como dicen) una
tregua, un puro reposo de la mente,
¿por qué, si te despiertan bruscamente,
sientes que te han robado una fortuna?
¿Por qué es tan triste madrugar? La hora
nos despoja de un don inconcebible,
tan íntimo que sólo es traducible
en un sopor que la vigilia dora
de sueños, que bien pueden ser reflejos
truncos de los tesoros de la sombra,
de un orbe intemporal que no se nombra
y que el día deforma en sus espejos.
¿Quién serás esta noche en el oscuro
sueño, del otro lado de su muro?

Jorge Luis Borges

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Enquanto prometemos o dia da coragem

1.
Não sei adivinhar as tempestades.
No fim de uma estação as borboletas morrem
e o vento quebra nas varandas altas.
É por trás dos vidros que então nos defendemos
de todas as surpresas: morremos de antemão.
E sob trovoada
assombra-nos o voo dos pássaros à chuva.

23.
Viciei os olhos em pequenas coisas
desviei-os para longe e estendi a mão
na direcção de cinzas. O mundo desfaz-se
de pequenas coisas em pequenas coisas
os olhos viciados numa laçada
de irrealidade - ah pudesse haver sequer
uma borboleta cega chamando nas vidraças.

Carlos Poças Falcão, Arte Nenhuma

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

No todo lo he perdido


(Erica Hopper)

No todo lo he perdido. Queda tu nombre. Queda
la hondura del silencio después de pronunciarlo.
Queda lo que no pasa ni puede pasar nunca:
lo que nunca ha pasado.
José Cereijo
Encontrado aqui.

Las palabras ya no dicen

Las palabras ya no dicen
lo que decían antes
son las mismas
pero ya no son las mismas
la vida a veces parece
un plagio
Gioconda Belli
Encontrado aqui.

domingo, 4 de outubro de 2015

Ninguém te deu nada

Ninguém te deu nada, sabes disso.
E entende-lo melhor cada manhã
quando abres teu vazio aos primeiros
raios de sol. Então agradeces
ter só por herança os sentidos 
para esse instante alado de pardais 
ao despertar, esse aroma florido
da brisa mais matutina.
E entende-lo melhor. Sabes que o tempo
acabará com toda a pertença,
com tudo o que não se tem ainda,
até com essa luz que te inunda 
de sua clara verdade. Ninguém te dá
senão ordens, leis e conselhos
a seguir, a bem ou a mal;
tristezas nocturnas, frases feitas,
remédios inúteis contra o frio,
entre outras muitas vaidades.
Mas tu agradeces. Assim nunca
terás de tornar o recebido 
a cem por um. E entende-lo melhor
quando te lembras do dia em
que terás de te ir, deixando só
alguns versos como exemplo
de tua digna pobreza. Ninguém cumpre
mais desejos lá por ir de riqueza aos ombros, 
lá por ter seus bens a salvo
de um fracasso inoportuno.
Vive por isso em paz com teu vazio,
com a luz da manhã, com este aroma
de solidão em flor, com o silêncio que,
tal como tu, sem ninguém, dá fruto.


María Sanz (Trad. A.M.)

Encontrado aqui.

Imagem: "11 a. m." de Edward Hopper (1926)

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

La vida es un espacio

La vida es un espacio 
en el que perdonar
y en el que conseguir
ser perdonados.
Todo lo que ocurre en medio
carece de importancia
pero nos hace muy infelices.

Begoña Abad


Trazido daqui.

domingo, 13 de setembro de 2015

Desalento

Tristeza destas minhas mãos
demasiado pesadas
para não abrirem feridas,
demasiado leves
para deixarem marca –
tristeza desta minha boca
que diz as mesmas
palavras que tu
– significando outras coisas –
e esta é a expressão
da mais desesperada
distância.

Antonia Pozzi