terça-feira, 17 de novembro de 2015

En este momento

Pienso que en este momento
tal vez nadie en el universo piensa en mí,
que solo yo me pienso,
y si ahora muriese,
nadie, ni yo, me pensaría.
Y aquí empieza el abismo,
como cuando me duermo.
Soy mi propio sostén y me lo quito.
Contribuyo a tapizar de ausencia todo.
Tal vez sea por esto
que pensar en un hombre
se parece a salvarlo.
Roberto Juarroz, Poesía Vertical I

sábado, 17 de outubro de 2015

O caminho

O caminho a percorrer no teu espaço é talvez uma maneira
de resistir à desumanidade que nos rodeia, a tudo o que é opaco
e doloroso.
Falo-te, invento-te na noite perfumada e tudo isto não acontece
por acaso.
Pressinto-te por detrás do silêncio. E existo.
Mas de que negras raízes é feita a árvore do teu corpo?


Maria Graciete Besse, Transparências

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Caminho sem pés e sem sonhos

Caminho sem pés e sem sonhos

só com a respiração e a cadência
da muda passagem dos sopros
caminho como um remo que se afunda.

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes
para que a elevação e a profundidade se conjuguem.
avanço sem jugo e ando longe

de caminhar sobre as águas do céu.

Daniel Faria

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Comecei dezenas de histórias

comecei dezenas de histórias
e não terminei nenhuma,
não sei para onde vão as minhas personagens
porque começam a falar
e logo se calam.
no papel sucede-me o mesmo que fora dele:
a minha vida é um punhado de começos
suspensos

Myriam Reys


Surripiado aqui

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

El sueño


Si el sueño fuera (como dicen) una
tregua, un puro reposo de la mente,
¿por qué, si te despiertan bruscamente,
sientes que te han robado una fortuna?
¿Por qué es tan triste madrugar? La hora
nos despoja de un don inconcebible,
tan íntimo que sólo es traducible
en un sopor que la vigilia dora
de sueños, que bien pueden ser reflejos
truncos de los tesoros de la sombra,
de un orbe intemporal que no se nombra
y que el día deforma en sus espejos.
¿Quién serás esta noche en el oscuro
sueño, del otro lado de su muro?

Jorge Luis Borges

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Enquanto prometemos o dia da coragem

1.
Não sei adivinhar as tempestades.
No fim de uma estação as borboletas morrem
e o vento quebra nas varandas altas.
É por trás dos vidros que então nos defendemos
de todas as surpresas: morremos de antemão.
E sob trovoada
assombra-nos o voo dos pássaros à chuva.

23.
Viciei os olhos em pequenas coisas
desviei-os para longe e estendi a mão
na direcção de cinzas. O mundo desfaz-se
de pequenas coisas em pequenas coisas
os olhos viciados numa laçada
de irrealidade - ah pudesse haver sequer
uma borboleta cega chamando nas vidraças.

Carlos Poças Falcão, Arte Nenhuma

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

No todo lo he perdido


(Erica Hopper)

No todo lo he perdido. Queda tu nombre. Queda
la hondura del silencio después de pronunciarlo.
Queda lo que no pasa ni puede pasar nunca:
lo que nunca ha pasado.
José Cereijo
Encontrado aqui.

Las palabras ya no dicen

Las palabras ya no dicen
lo que decían antes
son las mismas
pero ya no son las mismas
la vida a veces parece
un plagio
Gioconda Belli
Encontrado aqui.

domingo, 4 de outubro de 2015

Ninguém te deu nada

Ninguém te deu nada, sabes disso.
E entende-lo melhor cada manhã
quando abres teu vazio aos primeiros
raios de sol. Então agradeces
ter só por herança os sentidos 
para esse instante alado de pardais 
ao despertar, esse aroma florido
da brisa mais matutina.
E entende-lo melhor. Sabes que o tempo
acabará com toda a pertença,
com tudo o que não se tem ainda,
até com essa luz que te inunda 
de sua clara verdade. Ninguém te dá
senão ordens, leis e conselhos
a seguir, a bem ou a mal;
tristezas nocturnas, frases feitas,
remédios inúteis contra o frio,
entre outras muitas vaidades.
Mas tu agradeces. Assim nunca
terás de tornar o recebido 
a cem por um. E entende-lo melhor
quando te lembras do dia em
que terás de te ir, deixando só
alguns versos como exemplo
de tua digna pobreza. Ninguém cumpre
mais desejos lá por ir de riqueza aos ombros, 
lá por ter seus bens a salvo
de um fracasso inoportuno.
Vive por isso em paz com teu vazio,
com a luz da manhã, com este aroma
de solidão em flor, com o silêncio que,
tal como tu, sem ninguém, dá fruto.


María Sanz (Trad. A.M.)

Encontrado aqui.

Imagem: "11 a. m." de Edward Hopper (1926)

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

La vida es un espacio

La vida es un espacio 
en el que perdonar
y en el que conseguir
ser perdonados.
Todo lo que ocurre en medio
carece de importancia
pero nos hace muy infelices.

Begoña Abad


Trazido daqui.

domingo, 13 de setembro de 2015

Desalento

Tristeza destas minhas mãos
demasiado pesadas
para não abrirem feridas,
demasiado leves
para deixarem marca –
tristeza desta minha boca
que diz as mesmas
palavras que tu
– significando outras coisas –
e esta é a expressão
da mais desesperada
distância.

Antonia Pozzi

domingo, 9 de agosto de 2015

Carta de Otoño

Hoy te escribo porque sé que estás sola
y oyes la radio en una habitación
sin vistas al mar y lees libros
que leíste hace tiempo.
Porque sientes
como si fuera a llegar la noche de inmediato,
la inquietud de una tarde de espera
en la aséptica sala de un dentista.
Hoy te escribo porque sé que estás sola
y se han roto tus sueños,
y tus mitos murieron,
y la tarde está fría y no hay nadie en la calle.
Y menuda miseria asumir los errores
y los golpes al aire, el olor del fracaso,
las arrugas del tiempo y los días perdidos.
Trazas en el espejo
con el lápiz de labios el mapa
trashumante de la vida y lo vuelves
a borrar por retomar de nuevo
el mismo camino que reiniciaste
mil veces. Con el lápiz de labios.
Quién conoce la senda que buscaste,
quién tiene
en la mano la llave que perdiste
muchacha de vaqueros y suéter.
El mar sigue rompiendo en la orilla,
en la misma orilla
por donde andabas descalza
y mirabas –pezones agraces
y alma incendiada–
al horizonte y la bruma.
Hoy te escribo un poema
que tal vez nunca leas,
que tal vez nunca llegue a tu cuarto de humo
donde suena la radio
esta tarde de otoño.
Juan José Vélez Otero

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Tritão

Quero-te assim.
Com as pernas que nunca tive
para te seguir
e todos os dedos que fui
amputando, do lado do coração,
em castigo por não te saber tocar.

Assim, de cabeça finalmente perdida
para te explicar apenas
o essencial -

não há palavras
suficientes a este amor.
E um poema, mesmo de pedra,
também passa, a menos que
te ganhe para sempre os olhos.

Inês Dias

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Dez chamamentos ao amigo

Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.
E eu te direi que o nosso tempo é agora.
Esplêndida avidez, vasta ventura
Porque é mais vasto o sonho que elabora
Há tanto tempo sua própria tessitura.
Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.
Hilda Hilst

domingo, 7 de junho de 2015

De uma página aberta ao acaso

Mudança de pele

Às vezes apetece-me começar a viver uma outra vida,
com outro rosto, outra morada, outra identidade,
sem contudo deixar de ser eu, sempre e só eu,
e acreditem que gostava de ficar sentado numa esplanada,
numa cadeira branca de palhinha, a ver-me ser outro
sem deixar de ser eu, com os mesmos tiques,
com a mesma exaltada paixão pelo timbre da palavra,
com o mesmo vício dos livros, que é o único
que verdadeiramente tenho e que me custa os olhos da cara.
Mas é impossível, paciência. Resta-me a transfiguração
naquilo que escrevo, compulsivamente, como um asmático
a tentar libertar-se do ar que lhe oprime o peito.
E para dizer a verdade, que é coisa que a poesia
não tem necessariamente que dizer, não sei ao certo
o que poderia ser se chegasse a ser outro.
O que faria eu sem outra identidade? Seria astronauta,
veterinário por amor aos bichos, corretor de bolsa
transformado em pintor impressionista como o meu querido
Gauguin, cinzelador de metais raros e preciosos,
ourives de corte, cronista das tragédias sociais?
Creio que nenhuma das hipóteses me agradaria
e voltaria a ser aquilo que sempre fui,
heterónimo de mim mesmo, a fugir de mim aos ziguezagues,
cobra largando a pele dos ódios e dos medos
sem se importar com a estação em que a mudança se opera
(e para que a rima não falte), seja ela Inverno ou Primavera.

José Jorge Letria, Produto Interno Lírico