segunda-feira, 5 de outubro de 2015

No todo lo he perdido


(Erica Hopper)

No todo lo he perdido. Queda tu nombre. Queda
la hondura del silencio después de pronunciarlo.
Queda lo que no pasa ni puede pasar nunca:
lo que nunca ha pasado.
José Cereijo
Encontrado aqui.

Las palabras ya no dicen

Las palabras ya no dicen
lo que decían antes
son las mismas
pero ya no son las mismas
la vida a veces parece
un plagio
Gioconda Belli
Encontrado aqui.

domingo, 4 de outubro de 2015

Ninguém te deu nada

Ninguém te deu nada, sabes disso.
E entende-lo melhor cada manhã
quando abres teu vazio aos primeiros
raios de sol. Então agradeces
ter só por herança os sentidos 
para esse instante alado de pardais 
ao despertar, esse aroma florido
da brisa mais matutina.
E entende-lo melhor. Sabes que o tempo
acabará com toda a pertença,
com tudo o que não se tem ainda,
até com essa luz que te inunda 
de sua clara verdade. Ninguém te dá
senão ordens, leis e conselhos
a seguir, a bem ou a mal;
tristezas nocturnas, frases feitas,
remédios inúteis contra o frio,
entre outras muitas vaidades.
Mas tu agradeces. Assim nunca
terás de tornar o recebido 
a cem por um. E entende-lo melhor
quando te lembras do dia em
que terás de te ir, deixando só
alguns versos como exemplo
de tua digna pobreza. Ninguém cumpre
mais desejos lá por ir de riqueza aos ombros, 
lá por ter seus bens a salvo
de um fracasso inoportuno.
Vive por isso em paz com teu vazio,
com a luz da manhã, com este aroma
de solidão em flor, com o silêncio que,
tal como tu, sem ninguém, dá fruto.


María Sanz (Trad. A.M.)

Encontrado aqui.

Imagem: "11 a. m." de Edward Hopper (1926)

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

La vida es un espacio

La vida es un espacio 
en el que perdonar
y en el que conseguir
ser perdonados.
Todo lo que ocurre en medio
carece de importancia
pero nos hace muy infelices.

Begoña Abad


Trazido daqui.

domingo, 13 de setembro de 2015

Desalento

Tristeza destas minhas mãos
demasiado pesadas
para não abrirem feridas,
demasiado leves
para deixarem marca –
tristeza desta minha boca
que diz as mesmas
palavras que tu
– significando outras coisas –
e esta é a expressão
da mais desesperada
distância.

Antonia Pozzi

domingo, 9 de agosto de 2015

Carta de Otoño

Hoy te escribo porque sé que estás sola
y oyes la radio en una habitación
sin vistas al mar y lees libros
que leíste hace tiempo.
Porque sientes
como si fuera a llegar la noche de inmediato,
la inquietud de una tarde de espera
en la aséptica sala de un dentista.
Hoy te escribo porque sé que estás sola
y se han roto tus sueños,
y tus mitos murieron,
y la tarde está fría y no hay nadie en la calle.
Y menuda miseria asumir los errores
y los golpes al aire, el olor del fracaso,
las arrugas del tiempo y los días perdidos.
Trazas en el espejo
con el lápiz de labios el mapa
trashumante de la vida y lo vuelves
a borrar por retomar de nuevo
el mismo camino que reiniciaste
mil veces. Con el lápiz de labios.
Quién conoce la senda que buscaste,
quién tiene
en la mano la llave que perdiste
muchacha de vaqueros y suéter.
El mar sigue rompiendo en la orilla,
en la misma orilla
por donde andabas descalza
y mirabas –pezones agraces
y alma incendiada–
al horizonte y la bruma.
Hoy te escribo un poema
que tal vez nunca leas,
que tal vez nunca llegue a tu cuarto de humo
donde suena la radio
esta tarde de otoño.
Juan José Vélez Otero

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Tritão

Quero-te assim.
Com as pernas que nunca tive
para te seguir
e todos os dedos que fui
amputando, do lado do coração,
em castigo por não te saber tocar.

Assim, de cabeça finalmente perdida
para te explicar apenas
o essencial -

não há palavras
suficientes a este amor.
E um poema, mesmo de pedra,
também passa, a menos que
te ganhe para sempre os olhos.

Inês Dias

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Dez chamamentos ao amigo

Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.
E eu te direi que o nosso tempo é agora.
Esplêndida avidez, vasta ventura
Porque é mais vasto o sonho que elabora
Há tanto tempo sua própria tessitura.
Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.
Hilda Hilst

domingo, 7 de junho de 2015

De uma página aberta ao acaso

Mudança de pele

Às vezes apetece-me começar a viver uma outra vida,
com outro rosto, outra morada, outra identidade,
sem contudo deixar de ser eu, sempre e só eu,
e acreditem que gostava de ficar sentado numa esplanada,
numa cadeira branca de palhinha, a ver-me ser outro
sem deixar de ser eu, com os mesmos tiques,
com a mesma exaltada paixão pelo timbre da palavra,
com o mesmo vício dos livros, que é o único
que verdadeiramente tenho e que me custa os olhos da cara.
Mas é impossível, paciência. Resta-me a transfiguração
naquilo que escrevo, compulsivamente, como um asmático
a tentar libertar-se do ar que lhe oprime o peito.
E para dizer a verdade, que é coisa que a poesia
não tem necessariamente que dizer, não sei ao certo
o que poderia ser se chegasse a ser outro.
O que faria eu sem outra identidade? Seria astronauta,
veterinário por amor aos bichos, corretor de bolsa
transformado em pintor impressionista como o meu querido
Gauguin, cinzelador de metais raros e preciosos,
ourives de corte, cronista das tragédias sociais?
Creio que nenhuma das hipóteses me agradaria
e voltaria a ser aquilo que sempre fui,
heterónimo de mim mesmo, a fugir de mim aos ziguezagues,
cobra largando a pele dos ódios e dos medos
sem se importar com a estação em que a mudança se opera
(e para que a rima não falte), seja ela Inverno ou Primavera.

José Jorge Letria, Produto Interno Lírico

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Curva


Escultura de Cutileiro (Jardins do Palácio de Mateus)

Antes não nos pesava
o passado, colhíamos os dias
ainda verdes, a frescura da sua polpa
na vontade dos nossos dedos.

Depois vieram os sinais
dos primeiros cansaços sem remédio,
a noite fincou-se nas pedras,
fez-se de estorvos.

Aquilo que sobrou de ti
cabe-me nos bolsos
e é pouco para as minhas mãos.


Rui Pires Cabral, Morada

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A casa


Disse-te: uma casa.
Não falávamos há meses e isto
foi tudo o que te soube dizer:

uma casa, tenho uma casa.
Arrumei primeiro os discos, depois os filmes,
só então os livros, as loiças.
Como quem se abrigasse da chuva,
pendurei os primeiros quadros.
Quatro: estrada, mar, mulher, coração.
Começou a chover quando me perguntaste
se te convidava para jantar.
Era desnecessariamente Julho
e dentro de casa chovia tanto.

Disse-to, confesso, sem esperança
- apenas porque uma casa
é muito grande para guardar na boca.

Filipa Leal

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Em frente do mar


Pergunto a mim próprio em que noite nos perdemos?, 
que desencontro nos levou de um a outro lado das
nossas vidas? e que caminhos evitámos para que os nossos
passos se não voltassem a cruzar? Mas as perguntas que
te faço, hoje, já não têm resposta. Sento-me contigo, 
nesta mesa da memória, e partilho o prato da solidão. Tu, 
na cadeira vazia onde te imagino, sacodes o cabelo com 
um aceno de ironia. E dou-te razão: as coisas podiam 
ter sido de outro modo. Não te disse as palavras que 
esperaste; e havia o mar, com as suas ondas, nessa tarde 
em que me puxaste para longe da cidade, como se 
a noite não nos obrigasse a voltar, quando o horizonte
se apagou a nossa frente. Depois disso, nenhuma
pergunta tem resposta. O que é absurdo há-de continuar 
absurdo, como o horizonte não se voltou a abrir, 
trazendo de volta os teus olhos que me pediam que
os olhasse, até que a noite me impedisse de o fazer,

Nuno Júdice, O Estado dos Campos

domingo, 16 de novembro de 2014

Nesta brisa quase suave

Nesta brisa quase suave
de plantas já anoitecidas
quase te toco entre as regas,
e entristeço.
A tua ausência é tão real
como os vastos campos de girassóis
secos, envelhecidos, quase mortos.
Alugo a voz e a expressão
a par de todos os espaços
deste lugar que se inicia.
Tudo isto é simples:
tenho o coração desarrumado.
Vem.

Filipa Leal

quarta-feira, 16 de julho de 2014

A estrada branca

Atravessei contigo a minuciosa tarde 
deste-me a tua mão, a vida parecia 
difícil de estabelecer acima do muro alto 

folhas tremiam 
ao invisível peso mais forte 

Podia morrer por uma só dessas coisas 
que trazemos sem que possam ser ditas: 
astros cruzam-se numa velocidade que apavora 
inamovíveis glaciares por fim se deslocam 
e na única forma que tem de acompanhar-te 
o meu coração bate 

José Tolentino Mendonça

domingo, 18 de maio de 2014

Às vezes

Às vezes tenho medo de esquecer tudo:
a casa onde nasci, o recreio
da escola, essas vozes
que lembram um copo de água
no verão.
                     
Jorge Gomes Miranda, O que nos protege