domingo, 3 de março de 2013

Poema de amor


De verdad es ahora 
cuando te reconozco.
Sólo a través del sueño
tus contornos son nítidos,
oigo clara tu voz,
recupero tus gestos
y tu lenta presencia
como el lento mecerse
de las aspas que giran
sobre nuestras cabezas.
Con la misma demora
con que tomas un baño
al final de la tarde.

Te conozco en la oscura razón
que sucede a la noche,
en la frágil frontera
de la luz, cuando el tiempo
es más real que nunca
o eso, acaso, parece.

A tu lado, aunque lejos,
tan en ti como ausente,
reconstruyo velado
tu otro rostro invisible,
el que en la edad dé forma
a la que en sueños eres.

Álvaro Valverde, A debida distancia, 1993 

sexta-feira, 1 de março de 2013

Amanecida

Ahora que tengo la piel preparada para ser primavera.
Ahora que desearía arrullar en mis manos palomas.
Ahora que me brotan los besos de los labios.
Ahora que tengo dormidas las palabras y abierta la esperanza.
Ahora que mi ternura se está desbordando hasta invadirme entera.
Ahora que estoy inundada de necesidad de amor total y compartido.
Ahora que estoy en el camino
no me estorbes, 
soledad, ahora.

Pura López Cortés

domingo, 10 de fevereiro de 2013

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Fala Circe

Três e meia da manhã.
É inútil procurar o candeeiro.
No estuque da insónia,
o filme recomeça.
Que fim será o fim?

Pretéritos prazeres,
cigarros consumidos
– é isto o coração:
um cinzeiro de metal?
Preferia não fumar.

Quero tanto o teu amor
que termino a odiar-me.
Quem me dera ser o Rambo,
saber sempre o que fazer ao inimigo.
Não sei por que sorrio,

quando tudo o que me resta é a magia
que me traz o Halcion: sonhar
que não existes, nem o filme,
nem o fumo, nem o frio, nem o fosco
cinzeiro de metal.


José Miguel Silva, Ulisses já não mora aqui

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

escrevo-te


escrevo-te
pelo corpo sinto um arrepio de vertigem
que me enche o coração de ausência pavor e saudade
teu rosto é semelhante à noite
a espantosa noite de teu rosto!
corri para o telefone mas não me lembrava do teu número
queria apenas ouvir a tua voz
contar-te o sonho que tive ontem e me aterrorizou
queria dizer-te porque parto
por que amo
ouvir-te perguntar quem fala?
e faltar-me a coragem para responder e desligar
depois caminhei como uma fera enfurecida pela casa
a noite tornou-se patética sem ti
não tinha sentido pensar em ti e não sair a correr pela rua
procurar-te imediatamente
correr a cidade duma ponta a outra
só para te dizer boa noite
ou talvez tocar-te
e morrer

Al Berto

domingo, 27 de janeiro de 2013

Esta manhã não lavei os olhos -
pensei em ti.

Se o teu ouvido se fechou à minha boca
poderei escrever ainda poemas de amor?
A arte de amar não me serve para nada.

Um fogo em luz transformado.
Subitamente, a sombra.

Há dias em que morro de amor.
Nos outros, de tão desamado,
morro um pouco mais.

Casimiro de Brito, Arte de Bem Morrer

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Por um rosto chego ao teu rosto


Por um rosto chego ao teu rosto, 
noutro corpo sei o teu corpo. 
Num autocarro, num café me pergunto 
porque não falam o que vai 
no seu silêncio aqueles cujo olhar 
me fala da solidão. 
Esqueço-me de mim. Tão quieto 
pensando na sua pouca coragem, a minha 
sempre adiada. Por um rosto 
chegaria o teu rosto, mesmo de um convite 
ousado fugiria, esta mão conhece-te 
e desenha no ar o hábito 
por que andou antes de saíres 
do espaço à sua volta. Estás longe, 
só assim podes pedir algumas horas 
aos meus dias. Sem fixar a voz 
a tua voz é uma corda, a minha 
um fio a partir-se. 

Helder Moura Pereira

domingo, 13 de janeiro de 2013

E agora

E agora, de alma vazia como tantas
vezes,
contemplo o passar lento dos dias
que me empurram não sei para que destino
escuro, pressentido
já sem curiosidade. É aborrecido
saber e não saber, enganar-se
e acertar. Também estar seguro
é tão insuportável em muitos casos
como duvidar, como ceder, como desmoronar-se.


Seguro, a salvo, agora
que a dor já passou,
observo a borrasca tal como a esteira
fundida nas minhas costas
com o espesso limo
dos sucessos quotidianos, dados
ao esquecimento, antes de serem recordações.
A indiferença ante a própria sorte
não é melhor companheira que a angústia,
nem meu sorriso
(quando o acaso nos põe,
velho amor,
frente a frente)
representa outra coisa do que a ausência
de um gesto mais justo
para significar a seca, dolorosa,
irreparável perda do pranto.


Ángel González

Frágil


Escrever o teu rosto neste envelope
e acreditar que assim tu voltarias

Vã tentativa
fazer acreditar no magnetismo da linguagem
na força da gravidade das letras

Bruno Weinhals

Encontro


Ele não apareceu.
Talvez tenha adoecido ou ficado debaixo de
um eléctrico. Talvez outra pessoa se pusesse na conversa com ele.
Talvez se tenha esquecido do relógio,
ou o relógio se tenha esquecido de lhe dar o tempo certo.
Talvez o carro não pegasse,
ou tenha ficado avariado a meio do caminho.
Talvez alguém lhe telefonasse quando ia a sair de casa,
dizendo-lhe que tinha de ir a um funeral
ou que a mãe dele tinha morrido.
Talvez tenha encontrado um antigo conhecido.
Talvez tenha tido uma discussão no emprego,
tenha sido despedido e esteja a esconder
a cabeça debaixo de uma almofada.
Talvez a ponte estivesse fechada e
a seguinte também.
Talvez o semáforo permanecesse vermelho.
Talvez o multibanco tenha engolido o cartão
ou a meio do caminho tenha reparado que se esquecera
do porta-moedas.
Talvez tenha perdido os óculos,
não conseguisse deixar de ler,
houvesse um programa que ele queria acabar de ver,
não conseguisse dar a volta à fechadura da porta,
não encontrasse as chaves em sítio nenhum e
o cão dele de repente começasse a vomitar.
Talvez não houvesse um telefone por perto,
não encontrasse o restaurante
ou esteja à espera noutro sítio, por engano.
Talvez – a última possibilidade,
incompreensível e inesperada –
ele tenha deixado de me amar.

Hagar Peeters

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

fingir que está tudo bem

fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer? olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.

José Luís Peixoto, a criança em ruínas

Eu amo-te

Eu amo-te sem saber como, ou quando, ou a partir de onde. Eu simplesmente amo-te, sem problemas ou orgulho: eu amo-te desta maneira porque não conheço qualquer outra forma de amar sem ser esta, onde não existe eu ou tu, tão intimamente que a tua mão sobre o meu peito é a minha mão, tão intimamente que quando adormeço os teus olhos fecham-se.

Pablo Neruda


Quando recuamos

quando recuamos

como o sol recua atrás dos montes distantes

não te sei perder.
é uma conclusão simples mas simples são
também os processos naturais: a chuva que cai
a flor que cresce.
e por vezes é preciso recuar
e alcançar o abrigo
como o pastor alcança a branda no meio da serra.
é preciso aguardar a noite e clarificar o dia.
porque a clarividência é um dom
como os regatos que serpenteiam a terra
o são para
os pequenos seres que os rodeiam. 
e eu guardo-te e aguardo-te
como o sol se aguarda nas leves planícies
quando a noite se põe.

André Tomé, Insula

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Eran para otro mundo

Eran para otro mundo.

Todo diálogo, roto.
Todo amor, con costuras.
Todo juego, marcado.
Toda belleza, trunca.
¿Cómo llegaron hasta aquí?

Todo diálogo, verbo.
Todo amor, sin pronombres.
Todo juego, sin reglas.
Toda belleza, entrega.

Algo falla sin duda
en la administración del universo.
¿Criaturas erróneas?
¿Mundos equivocados?
¿Dioses irresponsables?
Eran para otro mundo.


Roberto Juarroz, Poesía Vertical, XIV, 10

domingo, 18 de novembro de 2012

Assombros


Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.

Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.

Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.

Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.

                      Affonso Romano de Sant'Anna