domingo, 14 de outubro de 2012

Escrevias pela noite fora


Escrevias pela noite fora. Olhava-te, olhava 
o que ia ficando nas pausas entre cada
sorriso. Por ti mudei a razão das coisas,
faz de conta que não sei as coisas que não queres
que saiba, acabei por te pensar com crianças
à volta. Agora há prédios onde havia
laranjeiras e romãs no chão e as palavras
nem o sabem dizer, apenas apontam a rua
que foi comum, o quarto estreito. Um livro
é suficiente neste passeio. Quando não escreves
estás a ler e ao lado das árvores o silêncio
é maior. Decerto te digo o que penso
baixando a cabeça e tu respondes sempre
com a cabeça inclinada e o fumo suspenso
no ar. As verdades nunca se disseram. Queria
prender-te, tornar a perder-te, achar-te
assim por acaso no meu dia livre a meio
da semana. Mantêm-se as causas iguais
das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina
dos sorrisos vem de nenhum vício. Este abandono
custa. Porque estou contigo e me deixas
a tua imagem passa pelas noites sem sono,
está aqui a cadeira em que te sentaste
a escrever lendo. Pudesse eu propor-te
vida menos igual, outras iguais obrigações.
Havias de rir, sair à rua, comprar o jornal.

Helder Moura Pereira, 
De Novo as Sombras e as Calmas

sábado, 13 de outubro de 2012

Uma só vida não chega

uma só vida não chega 
nem outra nem outra ainda 
para dizer que te amo 
meu amor meu só amor. 

E quando a morte vier 
inevitável e certa 
que seja eu o primeiro 
a ficar no livro inscrito. 

Que ali discreto seja 
e feliz por ter amado 
a mulher por que morri 

vivendo. Nada mais quero. 
Se de seu amor morri 
 morrendo volto a viver. 

Liberto Cruz

Névoa ou sintaxe



Na paz súbita do canto
me surpreendo
em manso aviso
e, insone, embarco
na jangada incerta.

Não isentas, as veias sabem
e em silêncio depõem,
de coragem, rios.
E a calma é tão fecunda
que adolescente, parto.

Na secreta angústia,
serena, a memória me confina  
e válido, num grito me anuncio.

Liberto Cruz

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Afinal


Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.


(...)

Pessoa - Álvaro de Campos (excerto de poema)

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Tarde

Nostálgica é a luz
que desliza das margens deste rio sem ti.
Os chilreios do tempo ecoam nas águas de vidro
e através delas vêem-se melodias silenciosas
abandonadas à sombra dos limos.
A tarde esmorece... Inteira.


Lídia Borges, No espanto das mãos - o verbo

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Amor de tarde

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são quatro
e termino a planilha e penso dez minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são seis.
Você podia chegar de repente
e dizer "e aí?" e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus lábios
você com o risco azul do meu carbono.


Mario Benedetti

terça-feira, 31 de julho de 2012



Em que idioma te direi
este amor sem nome
que é servo e rei?


Como o direi?
Como o calarei?


É como se a noite se molhasse
repentinamente, quando choras.
É como se o dia se demorasse,
quando te espero e tu te demoras.

Albano Martins

No help for that

There is a place in the heart that will never be filled
A space 
And even during the best moments
And the greatest times
We will know it.
We will know it more than ever
There is a place in the heart that will never be filled
And we will wait 
And wait 
in that space.



Charles Bukowski

terça-feira, 24 de julho de 2012

Falei de ti

Falei de ti com as palavras mais limpas

Viajei, sem que soubesses, no teu interior.
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,

tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.



Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
Em tudo o mais usei da parcimónia
a que me forçava aquele ardor exclusivo.



Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias.




Fernando Assis Pacheco

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Amor que mata


Está em mim
O amor que é teu
O amor que me fere…
Tortura-me…
E me deixa frágil
E me faz poeta…

Em silêncio vivo,
Disfarço
Guardo na noite inquieta
Sentimento forte, louco…

E aos poucos
Vou morrendo… e tu nem sabes
Que estou querendo, apenas,
Estar nos teus sonhos noturnos.

António Carlos Menezes

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Decepção

Criaste para mim um mundo de sonhos,
Até a ilusão de um amor eterno.

No entanto, hoje, chegas-me sem riso,
Como se nada valesse meus versos,
Como se o amor não mais existisse.

Por que me acordaste dos meus sonhos de outono,
Afastando-me das noites de vinho e fado?

Eu era mais feliz em outro mar, navegando
Em busca do meu paraíso encantado.

António Carlos Menezes

domingo, 1 de julho de 2012

Elegia

Nem os 
dias longos me separam da tua imagem. 
Abro-a no espelho de um céu monótono, ou 
deixo que a tarde a prolongue no tédio dos 
horizontes. O perfil cinzento da montanha, 
para norte, e a linha azul do mar, a sul, 
dão-lhe a moldura cujo centro se esvazia 
quando, ao dizer o teu nome, a realidade do 
som apaga a ilusão de um rosto. Então, desejo 
o silêncio para que dele possas renascer, 
sombra, e dessa presença possa abstrair a 
tua memória. 


Nuno Júdice

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Segredo

Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome — essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.


Fernando Pinto do Amaral

terça-feira, 19 de junho de 2012

Soneto


Amor desta tarde que arrefeceu

as mãos e os olhos que te dei;
amor exacto, vivo, desenhado
a fogo, onde eu próprio me queimei;

amor que me destrói e destruiu
a fria arquitectura desta tarde
- só a ti canto, que nem eu já sei
outra forma de ser e de encontrar-me.

Só a ti canto que não há razão
para que o frio que me queima os olhos
me trespasse e me suba ao coração;
só a ti canto, que não há desastre
de onde não possa ainda erguer-me
para encontrar de novo a tua face.
Eugénio de Andrade

Os teus pés

Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
a duplicada púrpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouco levantaram voo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.


Pablo Neruda