sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Tarde

Nostálgica é a luz
que desliza das margens deste rio sem ti.
Os chilreios do tempo ecoam nas águas de vidro
e através delas vêem-se melodias silenciosas
abandonadas à sombra dos limos.
A tarde esmorece... Inteira.


Lídia Borges, No espanto das mãos - o verbo

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Amor de tarde

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são quatro
e termino a planilha e penso dez minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são seis.
Você podia chegar de repente
e dizer "e aí?" e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus lábios
você com o risco azul do meu carbono.


Mario Benedetti

terça-feira, 31 de julho de 2012



Em que idioma te direi
este amor sem nome
que é servo e rei?


Como o direi?
Como o calarei?


É como se a noite se molhasse
repentinamente, quando choras.
É como se o dia se demorasse,
quando te espero e tu te demoras.

Albano Martins

No help for that

There is a place in the heart that will never be filled
A space 
And even during the best moments
And the greatest times
We will know it.
We will know it more than ever
There is a place in the heart that will never be filled
And we will wait 
And wait 
in that space.



Charles Bukowski

terça-feira, 24 de julho de 2012

Falei de ti

Falei de ti com as palavras mais limpas

Viajei, sem que soubesses, no teu interior.
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,

tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.



Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
Em tudo o mais usei da parcimónia
a que me forçava aquele ardor exclusivo.



Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias.




Fernando Assis Pacheco

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Amor que mata


Está em mim
O amor que é teu
O amor que me fere…
Tortura-me…
E me deixa frágil
E me faz poeta…

Em silêncio vivo,
Disfarço
Guardo na noite inquieta
Sentimento forte, louco…

E aos poucos
Vou morrendo… e tu nem sabes
Que estou querendo, apenas,
Estar nos teus sonhos noturnos.

António Carlos Menezes

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Decepção

Criaste para mim um mundo de sonhos,
Até a ilusão de um amor eterno.

No entanto, hoje, chegas-me sem riso,
Como se nada valesse meus versos,
Como se o amor não mais existisse.

Por que me acordaste dos meus sonhos de outono,
Afastando-me das noites de vinho e fado?

Eu era mais feliz em outro mar, navegando
Em busca do meu paraíso encantado.

António Carlos Menezes

domingo, 1 de julho de 2012

Elegia

Nem os 
dias longos me separam da tua imagem. 
Abro-a no espelho de um céu monótono, ou 
deixo que a tarde a prolongue no tédio dos 
horizontes. O perfil cinzento da montanha, 
para norte, e a linha azul do mar, a sul, 
dão-lhe a moldura cujo centro se esvazia 
quando, ao dizer o teu nome, a realidade do 
som apaga a ilusão de um rosto. Então, desejo 
o silêncio para que dele possas renascer, 
sombra, e dessa presença possa abstrair a 
tua memória. 


Nuno Júdice

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Segredo

Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome — essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.


Fernando Pinto do Amaral

terça-feira, 19 de junho de 2012

Soneto


Amor desta tarde que arrefeceu

as mãos e os olhos que te dei;
amor exacto, vivo, desenhado
a fogo, onde eu próprio me queimei;

amor que me destrói e destruiu
a fria arquitectura desta tarde
- só a ti canto, que nem eu já sei
outra forma de ser e de encontrar-me.

Só a ti canto que não há razão
para que o frio que me queima os olhos
me trespasse e me suba ao coração;
só a ti canto, que não há desastre
de onde não possa ainda erguer-me
para encontrar de novo a tua face.
Eugénio de Andrade

Os teus pés

Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
a duplicada púrpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouco levantaram voo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.


Pablo Neruda

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Impossível carinho

Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
-Eu soubesse repor_
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!


Manuel Bandeira

terça-feira, 12 de junho de 2012

Vem vento, varre

(Imagem: Soizick Meister)


Vem vento, varre
sonhos e mortos.
Vem vento, varre
medos e culpas.
Quer seja dia,
quer faça treva,
varre sem pena,
leva adiante
paz e sossego,
leva contigo
nocturnas preces,
presságios fúnebres,
pávidos rostos
só cobardia.


Que fique apenas
erecto e duro
o tronco estreme 
de raiz funda.
Leva a doçura, 
se for preciso: 
ao canto fundo 
basta o que basta. 


Vem vento, varre! 


Adolfo Casais Monteiro

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Gruas no cais descarregam mercadorias

Gruas no cais descarregam mercadorias e eu amo-te.
Homens isolados caminham nas avenidas e eu amo-te.
Silêncios eléctricos faíscam dentro das máquinas e eu amo-te.
Destruição contra o caos, destruição contra o caos, e eu amo-te.
Reflexos de corpos desfiguram-se nas montras e eu amo-te.
Envelhecem anos no esquecimento dos armazéns e eu amo-te.
Toda a cidade se destina à noite e eu amo-te.

José Luís Peixoto

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Aviso

Se me quiseres amar, 
terá de ser agora: depois
estarei cansada. 
Minha vida foi feita de parceria com a morte:
pertenço um pouco a cada uma,
pra mim sobrou quase nada. 


Ponho a máscara do dia, 
um rosto cômodo e simples, 
e assim garanto a minha sobrevida. 

Se me quiseres amar, 
terá de ser hoje: 
amanhã estarei mudada. 


 Lya Luft