quarta-feira, 20 de junho de 2012

Segredo

Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome — essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.


Fernando Pinto do Amaral

terça-feira, 19 de junho de 2012

Soneto


Amor desta tarde que arrefeceu

as mãos e os olhos que te dei;
amor exacto, vivo, desenhado
a fogo, onde eu próprio me queimei;

amor que me destrói e destruiu
a fria arquitectura desta tarde
- só a ti canto, que nem eu já sei
outra forma de ser e de encontrar-me.

Só a ti canto que não há razão
para que o frio que me queima os olhos
me trespasse e me suba ao coração;
só a ti canto, que não há desastre
de onde não possa ainda erguer-me
para encontrar de novo a tua face.
Eugénio de Andrade

Os teus pés

Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
a duplicada púrpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouco levantaram voo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.


Pablo Neruda

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Impossível carinho

Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
-Eu soubesse repor_
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!


Manuel Bandeira

terça-feira, 12 de junho de 2012

Vem vento, varre

(Imagem: Soizick Meister)


Vem vento, varre
sonhos e mortos.
Vem vento, varre
medos e culpas.
Quer seja dia,
quer faça treva,
varre sem pena,
leva adiante
paz e sossego,
leva contigo
nocturnas preces,
presságios fúnebres,
pávidos rostos
só cobardia.


Que fique apenas
erecto e duro
o tronco estreme 
de raiz funda.
Leva a doçura, 
se for preciso: 
ao canto fundo 
basta o que basta. 


Vem vento, varre! 


Adolfo Casais Monteiro

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Gruas no cais descarregam mercadorias

Gruas no cais descarregam mercadorias e eu amo-te.
Homens isolados caminham nas avenidas e eu amo-te.
Silêncios eléctricos faíscam dentro das máquinas e eu amo-te.
Destruição contra o caos, destruição contra o caos, e eu amo-te.
Reflexos de corpos desfiguram-se nas montras e eu amo-te.
Envelhecem anos no esquecimento dos armazéns e eu amo-te.
Toda a cidade se destina à noite e eu amo-te.

José Luís Peixoto

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Aviso

Se me quiseres amar, 
terá de ser agora: depois
estarei cansada. 
Minha vida foi feita de parceria com a morte:
pertenço um pouco a cada uma,
pra mim sobrou quase nada. 


Ponho a máscara do dia, 
um rosto cômodo e simples, 
e assim garanto a minha sobrevida. 

Se me quiseres amar, 
terá de ser hoje: 
amanhã estarei mudada. 


 Lya Luft

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Se te penso


O Douro visto do miradouro de S. Leonardo da Galafura


Quando, em sossego, te penso
és flor em prado verde, água pura.
Árvore de verde vestida
celebrando o amanhecer.


Que falta faz a tua primavera aos meus olhos
o teu verde às minhas janelas de sardinheiras tristes
a leveza dessa água à sede da minha boca
a sombra das tuas árvores à minha alma árida.


Ah! Pudesse eu ainda
crer na primavera e cobriria o meu outono
de flores, de abelhas, de borboletas,
de pássaros eternos...


Lídia Borges, No espanto das mãos, o verbo

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Eu quero apenas amar-te lentamente



Eu quero apenas amar-te lentamente
Como se todo o tempo fosse nosso
Como se todo o tempo fosse pouco
Como se nem sequer houvesse tempo.



Joaquim Pessoa

Sei lá


O relógio marca
quarenta e oito horas sem te ver
sei lá quantas para te esquecer.

Alice Ruiz

O do amor

Espaço sem portas, sem estradas, o do amor. 
O primeiro desejo dos amantes é serem velhos amantes. 
E começarem assim 
o amor pelo fim. 

Regina Guimarães

domingo, 27 de maio de 2012

Na palma da tua mão

e na palma da tua mão 
busco ternura 
sem contar meses, 
anos,dias, 
sem saber dizer 
se já te chorei 
por inteiro 
o suficiente 
para não voltar
a perder-te 

Vasco Gato

sábado, 26 de maio de 2012

Aceitar o dia

Aceitar o dia. O que vier. 
Atravessar mais ruas do que casas, 
mais gente do que ruas. Atravessar
a pele até ao outro lado. Enquanto
faço e desfaço o dia. O teu coração 
dorme comigo. Agasalha-me as noites 
e as manhãs são frias quando me levanto. 
E pergunto sempre onde estás e porque 
as ruas deixaram de ser rios. Às vezes 
uma gota de água cai ao chão 
como se fosse uma lágrima. Às vezes 
não há chão que baste para a enxugar. 


Rosa Alice Branco

sábado, 5 de maio de 2012

Me dices que me quieres

Me dices que me quieres de una forma 
que no puedo evitar ruborizarme; 
que me quieres de un modo primitivo, 
sin razón aparente y sin excusas, 
y que me quieres porque me deseas, 
porque sabes que yo también te quiero 
y porque el monstruo de este amor nos come 
el alma, la paciencia y los modales. 
Qué lástima que todas estas cosas 
se nos mueran ahogadas de silencio. 


 Amalia Bautista

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Nenhum de nós

Nenhum de nós passeia impune
pelos retratos: fazem-nos doer
os recessos da memória.

Deles saltam, por vezes, sustos,
primeiras noites, secreta
loucura, lábios que foram.

Interditam-nos sempre.
Trepam-nos pelo torpor
mais desprevenido, subsistem.

A sua perenidade é volátil
e cheia de venenosos ardis.
Um sopro no acetato.

Distintos, os seus contornos
não são nunca
os que supomos.

Eduardo Pitta