sexta-feira, 8 de junho de 2012

Gruas no cais descarregam mercadorias

Gruas no cais descarregam mercadorias e eu amo-te.
Homens isolados caminham nas avenidas e eu amo-te.
Silêncios eléctricos faíscam dentro das máquinas e eu amo-te.
Destruição contra o caos, destruição contra o caos, e eu amo-te.
Reflexos de corpos desfiguram-se nas montras e eu amo-te.
Envelhecem anos no esquecimento dos armazéns e eu amo-te.
Toda a cidade se destina à noite e eu amo-te.

José Luís Peixoto

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Aviso

Se me quiseres amar, 
terá de ser agora: depois
estarei cansada. 
Minha vida foi feita de parceria com a morte:
pertenço um pouco a cada uma,
pra mim sobrou quase nada. 


Ponho a máscara do dia, 
um rosto cômodo e simples, 
e assim garanto a minha sobrevida. 

Se me quiseres amar, 
terá de ser hoje: 
amanhã estarei mudada. 


 Lya Luft

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Se te penso


O Douro visto do miradouro de S. Leonardo da Galafura


Quando, em sossego, te penso
és flor em prado verde, água pura.
Árvore de verde vestida
celebrando o amanhecer.


Que falta faz a tua primavera aos meus olhos
o teu verde às minhas janelas de sardinheiras tristes
a leveza dessa água à sede da minha boca
a sombra das tuas árvores à minha alma árida.


Ah! Pudesse eu ainda
crer na primavera e cobriria o meu outono
de flores, de abelhas, de borboletas,
de pássaros eternos...


Lídia Borges, No espanto das mãos, o verbo

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Eu quero apenas amar-te lentamente



Eu quero apenas amar-te lentamente
Como se todo o tempo fosse nosso
Como se todo o tempo fosse pouco
Como se nem sequer houvesse tempo.



Joaquim Pessoa

Sei lá


O relógio marca
quarenta e oito horas sem te ver
sei lá quantas para te esquecer.

Alice Ruiz

O do amor

Espaço sem portas, sem estradas, o do amor. 
O primeiro desejo dos amantes é serem velhos amantes. 
E começarem assim 
o amor pelo fim. 

Regina Guimarães

domingo, 27 de maio de 2012

Na palma da tua mão

e na palma da tua mão 
busco ternura 
sem contar meses, 
anos,dias, 
sem saber dizer 
se já te chorei 
por inteiro 
o suficiente 
para não voltar
a perder-te 

Vasco Gato

sábado, 26 de maio de 2012

Aceitar o dia

Aceitar o dia. O que vier. 
Atravessar mais ruas do que casas, 
mais gente do que ruas. Atravessar
a pele até ao outro lado. Enquanto
faço e desfaço o dia. O teu coração 
dorme comigo. Agasalha-me as noites 
e as manhãs são frias quando me levanto. 
E pergunto sempre onde estás e porque 
as ruas deixaram de ser rios. Às vezes 
uma gota de água cai ao chão 
como se fosse uma lágrima. Às vezes 
não há chão que baste para a enxugar. 


Rosa Alice Branco

sábado, 5 de maio de 2012

Me dices que me quieres

Me dices que me quieres de una forma 
que no puedo evitar ruborizarme; 
que me quieres de un modo primitivo, 
sin razón aparente y sin excusas, 
y que me quieres porque me deseas, 
porque sabes que yo también te quiero 
y porque el monstruo de este amor nos come 
el alma, la paciencia y los modales. 
Qué lástima que todas estas cosas 
se nos mueran ahogadas de silencio. 


 Amalia Bautista

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Nenhum de nós

Nenhum de nós passeia impune
pelos retratos: fazem-nos doer
os recessos da memória.

Deles saltam, por vezes, sustos,
primeiras noites, secreta
loucura, lábios que foram.

Interditam-nos sempre.
Trepam-nos pelo torpor
mais desprevenido, subsistem.

A sua perenidade é volátil
e cheia de venenosos ardis.
Um sopro no acetato.

Distintos, os seus contornos
não são nunca
os que supomos.

Eduardo Pitta

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

As pequenas gavetas do amor

Se for preciso, irei buscar um sol
para falar de nós:
ao ponto mais longínquo
do verso mais remoto que te fiz


Devagar, meu amor, se for preciso,
cobrirei este chão
de estrelas mais brilhantes
que a mais constelação,
para que as mãos depois sejam tão
brandas
como as desta tarde


Na memória mais funda guardarei
em pequenas gavetas
palavras e olhares, se for preciso:
tão minúsculos centros
de cheiros e sabores


Só não trarei o resto
da ternura em resto esta tarde,
que nem nos foi preciso:
no fundo do amor, tenho-a comigo.
quando a quiseres-


Ana Luísa Amaral

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Sobre um improviso de John Coltrane

Ainda espero o amor
como no ringue o lutador caído
espera a sala vazia


primeiro vive-se e não se pensa em nada
não me digam a mim
com o tempo apenas se consegue
chegar aos degraus da frente:
é dificil
é cada vez mais difícil entrar em casa


não discuto o que fizeram de nós estes anos
a verdade é de outra importância
mas hoje anuncio que me despeço
à procura de um país de árvores


e ainda se me deixo ficar
um pouco além do razoável
não ouvem? O amor é um cordeiro
que grita abraçado à minha canção


José Tolentino Mendonça

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Limiar


Somos ainda o limiar - espessa
nuvem embrionária. Verdes,
imaturos crustáceos
emergimos
à superfície grávida
das ondas. Somos
o medo ou sua
improvável renúncia. O que
sabemos do
amor, da morte, é só
difusa,
opaca,
luminosa fábula.


Albano Martins

sábado, 24 de setembro de 2011

A sofreguidão de um instante

Tudo renegarei menos o afecto,
e trago um ceptro e uma coroa,
o primeiro de ferro, a segunda de urze,
para ser o rei efémero
desse amor único e breve
que se dilui em partidas
e se fragmenta em perguntas
iguais às das amantes
que a claridade atordoa e converte.
Deixa-me reinar em ti
o tempo apenas de um relâmpago
a incendiar a erva seca dos cumes.
E se tiver que montar guarda,
que seja em redor do teu sono,
num êxtase de lábios sobre a relva,
num delírio de beijos sobre o ventre,
num assombro de dedos sob a roupa.
Eu estava morto e não sabia, sabes,
que há um tempo dentro deste tempo
para renascermos com os corais
e sermos eternos na sofreguidão de um instante.


José Jorge Letria, Variantes do Oiro

sábado, 11 de junho de 2011

Solidão

Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso


Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio


É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou


Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna


Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo


Mia Couto, Raiz de Orvalho e Outros Poemas