quarta-feira, 21 de abril de 2010

Envelhecer

Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o significado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso também é velhice. Quando já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer... Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque, por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes por que acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exactidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreeende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal... e isso é precisamente a velhice.



Sándor Márai, As Velas Ardem Até ao Fim

domingo, 21 de março de 2010

Poema que aconteceu

Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.

A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que
se soubesse nem ligasse.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 19 de março de 2010

Bilhete

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...


Mário Quintana

No fim tu hás-de ver...

No fim tu hás-de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento...


Mário Quintana

segunda-feira, 1 de março de 2010

(...) mientras la vida se retiraba de mí sin que yo supiera qué hacer para alcanzarla. Ya había perdido demasiada vida, y ni siquiera tenía el consuelo de algo o alguien se la hubiera llevado.

Tomás Eloy Martínez, El Cantor de Tango
Sou mulher e escrevo. Sou plebeia e sei ler. Nasci serva e sou livre. Vi na minha vida coisas maravilhosas . Fiz na minha vida coisas maravilhosas . Durante algum tempo, o mundo foi um milagre. Depois a escuridão voltou. A pena treme entre os meus dedos cada vez que o aríete investe contra a porta. Um sólido portão de metal e madeira que não tardará a despedaçar-se. Pesados e suados homens de ferro amontoam-se à entrada. Vêm buscar-nos. As Boas Mulheres rezam. Eu escrevo. É a minha maior vitória, a minha conquista, o dom de que me sinto mais orgulhosa; e embora as minhas palavras estejam a ser devoradas pelo grande silêncio, constituem hoje a minha única arma.

Rosa Montero, História do Rei Transparente

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Da Amizade

Nas ligações baseadas apenas num traço comum, basta precavermo-nos contra o que pode afectá-lo. Não me importa qual seja a religião do meu médico ou do meu advogado; tê-la em consideração não tem nada que ver com os serviços amistosos que eles me devem. Na relação que comigo estabelecem os meus servidores, procedo da mesma maneira. Pouco me importa saber se um lacaio que tenciono contratar é casto; cuido apenas de me informar se é diligente. (...) Não me ocupo de dizer o que se deve fazer no mundo - já há bastantes que o dizem - mas de dizer o que eu nele faço.

Mihi sic usus est; tibi, ut opus est facto, face.

[«É assim que eu procedo; tu, faz como achares melhor.» - Terêncio, Heautontimorumenos, I, 1, 80]

Montaigne, "I, 28, Da Amizade", Da Amizade e Outros Ensaios

Dos Livros

Se quando leio encontro dificuldades, não roo as unhas por isso: após duas ou três investidas, deixo-as onde estão. Se as ficasse a remoer, perder-me-ia nelas e perderia o meu tempo, pois tenho um espírito impulsivo. Aquilo que não vejo à primeira carga, ainda o menos vejo em me obstinando.

Montaigne, "II, 10, Dos Livros", Da Amizade e Outros Ensaios

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

- mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

- palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...

e um dia me acabarei.

Cecília Meireles

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

se um dia a juventude voltasse

se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida

sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor

depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo

mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição

Al Berto, Rumor dos Fogos

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Non tires las cartas de amor

Caerán los años. Te cansarán los libros.
Descenderás aún más
e, incluso, perderás la poesia.
El ruído de ciudad en los cristales
acabará por ser tu única música,
y las cartas de amor que habrás guardado
serán tu última literatura.

Joan Margarit

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Todos os meus castelos de ar derreteram como a neve,
todos os meus sonhos correram como água,
de tudo quanto amei só me resta um céu azul
e umas quantas estrelas lívidas.
O vento sopra, suave, entre as árvores.
O vazio repousa. A água está em silêncio.
O velho abeto, alerta, pensa
na nuvem branca que beijou em sonhos.

Edith Södergran (Traduzido por mim de uma versão em castelhano)

domingo, 17 de janeiro de 2010

winter (letra)

I feel the snow
On my eyes
It touches me
Deep inside

And now I'm here
So high
A cloud
Up in the sky

And this has got me thinking
It's all because of you
My heart is dark
And my mouth so dry
Where were you
All this time?

My love is yours
You know
Every song I sing
Belongs to you
And as days like these
Come and go
I still remember
It's true

And this has got me thinking
It's all because of you
The night is dark and the moon so high
Where were you
All this time?

And as days like these
Pass me by
Through clouds or skies of blue
Then upon this heartbeat
I could fly
Just to sing this song for you
For you...

(Bebel Gilberto, Didi Gutman, Marius de Vries)

sábado, 16 de janeiro de 2010

Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam, e nunca reconhecem quando encontram, daquelas que, se elas as reconhecessem, mesmo assim não as reconheceriam. Sofro a delicadeza dos meus sentimentos com uma atenção desdenhosa. Tenho todas as qualidades, pelas quais são admirados os poetas românticos, mesmo aquela falta dessas qualidades, pela qual se é realmente poeta romântico. Encontro-me descrito (em parte) em vários romances como protagonista de vários enredos; mas o essencial da minha vida, como da minha alma, é não ser nunca protagonista.

Pessoa-Bernardo Soares, O Livro do Desassossego
Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. (...) Sento-me à porta e embebo os meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.

Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também.

Pessoa-Bernardo Soares, O Livro do Desassossego