domingo, 21 de fevereiro de 2010

Da Amizade

Nas ligações baseadas apenas num traço comum, basta precavermo-nos contra o que pode afectá-lo. Não me importa qual seja a religião do meu médico ou do meu advogado; tê-la em consideração não tem nada que ver com os serviços amistosos que eles me devem. Na relação que comigo estabelecem os meus servidores, procedo da mesma maneira. Pouco me importa saber se um lacaio que tenciono contratar é casto; cuido apenas de me informar se é diligente. (...) Não me ocupo de dizer o que se deve fazer no mundo - já há bastantes que o dizem - mas de dizer o que eu nele faço.

Mihi sic usus est; tibi, ut opus est facto, face.

[«É assim que eu procedo; tu, faz como achares melhor.» - Terêncio, Heautontimorumenos, I, 1, 80]

Montaigne, "I, 28, Da Amizade", Da Amizade e Outros Ensaios

Dos Livros

Se quando leio encontro dificuldades, não roo as unhas por isso: após duas ou três investidas, deixo-as onde estão. Se as ficasse a remoer, perder-me-ia nelas e perderia o meu tempo, pois tenho um espírito impulsivo. Aquilo que não vejo à primeira carga, ainda o menos vejo em me obstinando.

Montaigne, "II, 10, Dos Livros", Da Amizade e Outros Ensaios

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

- mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

- palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...

e um dia me acabarei.

Cecília Meireles

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

se um dia a juventude voltasse

se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida

sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor

depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo

mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição

Al Berto, Rumor dos Fogos

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Non tires las cartas de amor

Caerán los años. Te cansarán los libros.
Descenderás aún más
e, incluso, perderás la poesia.
El ruído de ciudad en los cristales
acabará por ser tu única música,
y las cartas de amor que habrás guardado
serán tu última literatura.

Joan Margarit

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Todos os meus castelos de ar derreteram como a neve,
todos os meus sonhos correram como água,
de tudo quanto amei só me resta um céu azul
e umas quantas estrelas lívidas.
O vento sopra, suave, entre as árvores.
O vazio repousa. A água está em silêncio.
O velho abeto, alerta, pensa
na nuvem branca que beijou em sonhos.

Edith Södergran (Traduzido por mim de uma versão em castelhano)

domingo, 17 de janeiro de 2010

winter (letra)

I feel the snow
On my eyes
It touches me
Deep inside

And now I'm here
So high
A cloud
Up in the sky

And this has got me thinking
It's all because of you
My heart is dark
And my mouth so dry
Where were you
All this time?

My love is yours
You know
Every song I sing
Belongs to you
And as days like these
Come and go
I still remember
It's true

And this has got me thinking
It's all because of you
The night is dark and the moon so high
Where were you
All this time?

And as days like these
Pass me by
Through clouds or skies of blue
Then upon this heartbeat
I could fly
Just to sing this song for you
For you...

(Bebel Gilberto, Didi Gutman, Marius de Vries)

sábado, 16 de janeiro de 2010

Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam, e nunca reconhecem quando encontram, daquelas que, se elas as reconhecessem, mesmo assim não as reconheceriam. Sofro a delicadeza dos meus sentimentos com uma atenção desdenhosa. Tenho todas as qualidades, pelas quais são admirados os poetas românticos, mesmo aquela falta dessas qualidades, pela qual se é realmente poeta romântico. Encontro-me descrito (em parte) em vários romances como protagonista de vários enredos; mas o essencial da minha vida, como da minha alma, é não ser nunca protagonista.

Pessoa-Bernardo Soares, O Livro do Desassossego
Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. (...) Sento-me à porta e embebo os meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.

Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também.

Pessoa-Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Sempre foi assim...

- Sempre foi assim, mas esquecemo-nos. O mundo nunca soube tanto acerca de si próprio e da sua natureza como agora, mas não lhe serve de nada. Repare, sempre houve maremotos. O que acontece é que antes não pretendíamos ter hotéis de luxo na primeira linha da praia... O homem cria eufemismos e cortinas de fumo para negar as leis naturais. Também para negar a condição infame que lhe é própria. E cada acordar custa-lhe os duzentos mortos de um avião que cai, os duzentos mil de um tsunami ou o milhão de uma guerra civil.
Arturo Pérez-Reverte, O Pintor de Batalhas

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O Cúmplice

(Samson Flexor: Cristo na Cruz, 1949)

Crucificam-me e eu tenho de ser a cruz e os pregos.
Estendem-me a taça e eu tenho de ser a cicuta.
Enganam-me e eu tenho de ser a mentira.
Incendeiam-me e eu tenho de ser o inferno.
Tenho de louvar e de agradecer cada instante do tempo.
O meu alimento é todas as coisas.
O peso exacto do universo, a humilhação, o júbilo.
Tenho de justificar o que me fere.
Não importa a minha felicidade ou infelicidade.
Sou o poeta.

Jorge Luis Borges, in A Cifra

sábado, 28 de novembro de 2009

Esta Gente/Essa Gente

O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
Que mostre o dente
Gente que seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente
Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente
Gente que enterre o dente
Que fira de unhas e dente
E mostre o dente potente
Ao prepotente
O que é preciso é gente
Que atire fora com essa gente

Ana Hatherley ( Porto 1929)

soneto da fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Dali avistámos homens que andavam pela praia, obra de sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos, por chegarem primeiro. (...)
Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijamente sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram.
Ali não pôde deles haver fala, nem entendimento de proveito, por o mar quebrar na costa. Dou-lhes somente um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça e um sombreiro preto. Um deles deu-lhe um sombreiro de penas de ave compridas, com uma copazinha pequena de penas vermelhas e pardas como de papagaio; e outro deu-lhe um ramal grande de continhas brancas, miúdas (...).
A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andavam nus, sem cobertura alguma. Não fazem o menor caso de encobrir ou mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto.
Carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei D. Manuel sobre o achamento do Brasil, Europa-América

quarta-feira, 15 de abril de 2009

long nights

Have no fear
For when I'm alone
I'll be better off than I was before

I've got this light
I'll be around to grow
Who I was before
I cannot recall

Long nights allow me to feel...
I'm falling...I am falling
The lights go out
Let me feel
I'm falling
I am falling safely to the ground
Ah...

I'll take this soul that's inside me now
Like a brand new friend
I'll forever know

I've got this light
And the will to show
I will always be better than before

Long nights allow me to feel...
I'm falling...I am falling
The lights go out
Let me feel
I'm falling
I am falling safely to the ground


(Eddie Vedder)