terça-feira, 13 de maio de 2008


Tras sobrevivir a miles de páginas sobre el tema, empezaba a tener la impresión de que cientos de creencias religiosas catalogadas a lo largo de la historia de la letra impresa resultaban extraordinariamente similares entre sí. (...) Mitos e leyendas, bien sobre divindades o sobre la formación y la historia de los pueblos y razas, empezaron a parecerme imagénes de rompecabezas vagamente diferenciadas y construidas siempre con las mismas piezas, aunque en diferente orden.


Todos ellos son relatos con personages que deben enfrentarse a la vida y superar obstáculos, figuras que se embarcan en un viaje de enriquecimento espiritual a través de peripecias y revelaciones. Todos los libros sagrados son, ante todo, grandes historias cuyas tramas abordan los aspectos básicos de la naturaleza humana y los situán en un contexto moral y un marco de dogmas sobrenaturales determinados.


Carlos Ruiz Zafón, El Juego del Ángel

sexta-feira, 2 de maio de 2008

às vezes o amor

Que hei-de eu fazer
Eu tão nova e desamparada
Quando o amor
Me entra de repente
P´la porta da frente
E fica a porta escancarada

Vou-te dizer
A luz começou em frestas
Se fores a ver
Enquanto assim durares
Se fores amada e amares
Dirás sempre palavras destas

P´ra te ter
P´ra que de mim não te zangues
Eu vou-te dar
A pele, o meu cetim
Coração carmesim
As carnes e com elas sangues

Às vezes o amor
No calendário, noutro mês, é dor,
é cego e surdo e mudo

E o dia tão diário disso tudo

E se um dia a razão
Fria e negra do destino
Deitar mão
À porta, à luz aberta
Que te deixe liberta
E do pássaro se ouça o trino

Por te querer
Vou abrir em mim dois espaços
P´ra te dar
Enredo ao folhetim
A flor ao teu jardim
As pernas e com elas braços

Às vezes o amor
No calendário, noutro mês, é dor,
É cego e surdo e mudo

E o dia tão diário disso tudo

Mas se tudo tem fim
Porquê dar a um amor guarida
Mesmo assim
Dá princípio ao começo
Se morreres só te peço
Da morte volta sempre em vida

Às vezes o amor
No calendário, noutro mês é dor,
É cego e surdo e mudo

E o dia tão diário disso tudo
Da morte volta sempre em vida

(Sérgio Godinho)

terça-feira, 29 de abril de 2008

only trust your heart

Never trust the stars
When you're about to fall in love
Look for hidden signs before you start to sigh

Never trust the moon
When you're about to taste his kiss
He knows all the lines and he knows how to lie

Just wait for a night
When the skies are all bare and then
If you still care

Never trust your dreams
When you're about to fall in love
For you're dreams may quickly fall apart

So if you're smart
Really smart
Only trust your heart

(
Sammy Cahn, Benny Carter)

domingo, 20 de abril de 2008

Há palavras que nos beijam



Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill

As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade

domingo, 13 de abril de 2008

Feeling Good

Birds flying high you know how I feel
Sun in the sky you know how I feel
Breeze driftin' on by you know how I feel

It's a new dawn
It's a new day
It's a new life
For me
And I'm feeling good

Fish in the sea you know how I feel
River running free you know how I feel
Blossom on the tree you know how I feel

Dragonfly out in the sun you know what I mean, don't you know
Butterflies all havin' fun you know what I mean
Sleep in peace when day is done
That's what I mean
And this old world is a new world
And a bold world
For me

Stars when you shine you know how I feel
Scent of the pine you know how I feel
Oh freedom is mine
And I know how I feel

(Anthony Newley e Leslie Bricusse)

sábado, 12 de abril de 2008

Trapo (Álvaro de Campos)

O dia deu em chuvoso.
A manhã, contudo, esteve bastante azul.
O dia deu em chuvoso.
Desde manhã eu estava um pouco triste.

Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma?
Não sei: já ao acordar estava triste.
O dia deu em chuvoso.

Bem sei, a penumbra da chuva é elegante.
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu azul e o sol visível.
Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.

Hoje quero só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho efectivamente sono, sem explicação.
O dia deu em chuvoso.

Carinhos? Afectos? São memórias...
É preciso ser-se criança para os ter...
Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!
O dia deu em chuvoso.

Boca bonita da filha do caseiro,
Polpa de fruta de um coração por comer...
Quando foi isso? Não sei...
No azul da manhã...

O dia deu em chuvoso.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

(Sophia de M. B. Andresen)

terça-feira, 8 de abril de 2008

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve com uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.

Ah, quem sabe, quem sabe,
Se não parti outrora, antes de mim,
Dum cais; se não deixei, navio ao sol
Oblíquo da madrugada,
Uma outra espécie de porto?
Quem sabe se não deixei, antes de a hora
Do mundo exterior como eu o vejo
Raiar-se para mim,
Um grande cais cheio de pouca gente,
Duma grande cidade meio-desperta,
Duma enorme cidade comercial, crescida, apopléctica,
Tanto quanto isso pode ser fora do Espaço e do Tempo?

(Excerto de Ode Marítima de Fernando Pessoa - Álvaro de Campos)

sexta-feira, 21 de março de 2008

Não tenhas medo do amor.

Não tenhas medo do amor.

Pousa a tua mão devagar sobre o peito da terra
e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas
que ali estão a crescer: o linho e genciana;
as ervilhas-de-cheiro e as campainhas azuis;
a menta perfumada para as infusões do verão
e a teia de raízes de um pequeno loureiro
que se organiza como uma rede de veias
na confusão de um corpo.
A vida nunca foi só Inverno,
nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes:
pousa a tua mão devagar sobre o teu peito
e ouve o clamor da tempestade que faz ruir os muros:
explode no teu coração um amor-perfeito,
será doce o seu pólen na corola de um beijo,
não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.


(Maria do Rosário Pedreira)

Encontrei este poema no "Portinho de Abrigo" da Xana e não resisti postá-lo, por ser tão belo. Não concordam?

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

preferências

Ó Ninfa,  a mais fermosa do Oceano,
Já que minha presença não te agrada,
Que te custava ter-me neste engano,
Ou fosse monte, nuvem, sonho ou nada?

(Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto V)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

northern sky

I never felt magic crazy as this
I never saw moons knew the meaning of the sea
I never held emotion in the palm of my hand
Or felt sweet breezes in the top of a tree
But now you're here
Brighten my northern sky.

I've been a long time that I'm waiting
Been a long that I'm blown
I've been a long time that I've wandered
Through the people I have known
Oh, if you would and you could
Straighten my new mind's eye.

Would you love me for my money
Would you love me for my head
Would you love me through the winter
Would you love me 'til I'm dead
Oh, if you would and you could
Come blow your horn on high.

I never felt magic crazy as this
I never saw moons knew the meaning of the sea
I never held emotion in the palm of my hand
Or felt sweet breezes in the top of a tree
But now you're here
Brighten my northern sky.

(Nick Drake, a tocar no "letras")

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Das releituras

Já ninguém escreve cartas. Eu, sou-lhe sincero, sinto saudades do tempo em que as pessoas se correspondiam, trocando cartas, cartas autênticas, em bom papel, ao qual era possível acrescentar uma gota de perfume, ou juntar flores secas, penas coloridas, uma madeixa de cabelo. Sofro uma nostalgia miúda desse tempo em que o carteiro nos trazia as cartas a casa, e da alegria, do susto também, com que as recebíamos, com que as abríamos, com que as líamos, e do cuidado com que, ao responder, escolhíamos as palavras, medindo-lhes o peso, avaliando a luz e o lume que ia nelas, sentindo-lhes a fragrância, porque sabíamos que seriam depois sopesadas, estudadas, cheiradas, saboreadas, e que algumas conseguiriam, eventualmente, escapar à voragem do tempo, para serem relidas muito tempo depois.

José Eduardo Agualusa, O Vendedor de Passados

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Mário de Cesariny

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

uma casa no fim do mundo

Detestava pensar que , fosse qual fosse a nossa opção - uma vida extravagante e perigosa ou uma existência segura e confortável de dedicação ao trabalho -, chegaríamos sempre à mesma vaga insatisfação e à esperança de que a geração seguinte conseguisse fazer mais e melhor.

Mostrei-me doce e flexível com pessoas que acabaram por me expulsar das suas vidas devido a uma qualquer indeterminada ofensa minha. Pessoas que afirmavam morrer se eu as abandonasse e depois me esbofeteavam em fúria por ter comprado a marca de cerveja errada. (...)
A partir dos trinta comecei a desistir do amor. Comecei a viver como uma criança, uma hora depois da outra, enquanto as mulheres da minha idade assistiam aos recitais e peças escolares dos filhos.

Até certo ponto, a maneira como estava a envelhecer agradava-me. Tinha inventado a minha própria vida. Não era uma cerimoniosa mulher de carreira a viver com dois gatos numa casa cheia de mapas antigos. Não era uma alcoólica alternando entre bebedeiras e ressacas. Orgulhava-me disso. Contudo, esperara chegar aos trinta e seis anos com um mais geral sentido de orgulho em mim própria. Esperava poder dizer, a quem mo perguntasse, o que andava eu a fazer no mundo.

Há poucos destinos inteiramente desagradáveis, caso contrário talvez conseguíssemos escapar-lhes mais facilmente.

(Excertos de Uma Casa no Fim do Mundo de Michael Cunningham)