quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

preferências

Ó Ninfa,  a mais fermosa do Oceano,
Já que minha presença não te agrada,
Que te custava ter-me neste engano,
Ou fosse monte, nuvem, sonho ou nada?

(Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto V)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

northern sky

I never felt magic crazy as this
I never saw moons knew the meaning of the sea
I never held emotion in the palm of my hand
Or felt sweet breezes in the top of a tree
But now you're here
Brighten my northern sky.

I've been a long time that I'm waiting
Been a long that I'm blown
I've been a long time that I've wandered
Through the people I have known
Oh, if you would and you could
Straighten my new mind's eye.

Would you love me for my money
Would you love me for my head
Would you love me through the winter
Would you love me 'til I'm dead
Oh, if you would and you could
Come blow your horn on high.

I never felt magic crazy as this
I never saw moons knew the meaning of the sea
I never held emotion in the palm of my hand
Or felt sweet breezes in the top of a tree
But now you're here
Brighten my northern sky.

(Nick Drake, a tocar no "letras")

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Das releituras

Já ninguém escreve cartas. Eu, sou-lhe sincero, sinto saudades do tempo em que as pessoas se correspondiam, trocando cartas, cartas autênticas, em bom papel, ao qual era possível acrescentar uma gota de perfume, ou juntar flores secas, penas coloridas, uma madeixa de cabelo. Sofro uma nostalgia miúda desse tempo em que o carteiro nos trazia as cartas a casa, e da alegria, do susto também, com que as recebíamos, com que as abríamos, com que as líamos, e do cuidado com que, ao responder, escolhíamos as palavras, medindo-lhes o peso, avaliando a luz e o lume que ia nelas, sentindo-lhes a fragrância, porque sabíamos que seriam depois sopesadas, estudadas, cheiradas, saboreadas, e que algumas conseguiriam, eventualmente, escapar à voragem do tempo, para serem relidas muito tempo depois.

José Eduardo Agualusa, O Vendedor de Passados

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Mário de Cesariny

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

uma casa no fim do mundo

Detestava pensar que , fosse qual fosse a nossa opção - uma vida extravagante e perigosa ou uma existência segura e confortável de dedicação ao trabalho -, chegaríamos sempre à mesma vaga insatisfação e à esperança de que a geração seguinte conseguisse fazer mais e melhor.

Mostrei-me doce e flexível com pessoas que acabaram por me expulsar das suas vidas devido a uma qualquer indeterminada ofensa minha. Pessoas que afirmavam morrer se eu as abandonasse e depois me esbofeteavam em fúria por ter comprado a marca de cerveja errada. (...)
A partir dos trinta comecei a desistir do amor. Comecei a viver como uma criança, uma hora depois da outra, enquanto as mulheres da minha idade assistiam aos recitais e peças escolares dos filhos.

Até certo ponto, a maneira como estava a envelhecer agradava-me. Tinha inventado a minha própria vida. Não era uma cerimoniosa mulher de carreira a viver com dois gatos numa casa cheia de mapas antigos. Não era uma alcoólica alternando entre bebedeiras e ressacas. Orgulhava-me disso. Contudo, esperara chegar aos trinta e seis anos com um mais geral sentido de orgulho em mim própria. Esperava poder dizer, a quem mo perguntasse, o que andava eu a fazer no mundo.

Há poucos destinos inteiramente desagradáveis, caso contrário talvez conseguíssemos escapar-lhes mais facilmente.

(Excertos de Uma Casa no Fim do Mundo de Michael Cunningham)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

mercy rain

Would you walk with me tonight
Could you run where the lovers run
Would you stay with me tonight
Will you forgive me if I rush
When I tell you I am yours
As we run where the lovers run

Run with the sound
I won't let you down

Would you swim from the rivers edge
Could you jump where the lovers jump
Would you stay with me tonight
Let's be the runners in the mercy rain
Be my bridge when I fear to cross
As we run where the lovers run

Run with the sound
I won't let you down

Swim, swim

(Peter Murphy, Cascade)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

sobre o amor

("Páris e Helena" de Jacques-Louis David)

Quatro ignorâncias podem concorrer em um amante, que diminuam muito a perfeição e merecimento de seu amor: ou porque não se conhecesse a si; ou porque não conhecesse a quem amava; ou porque não conhecesse o amor; ou porque não conhecesse o fim onde há-de parar, amando.

Enquanto Páris ignorante de si e da fortuna do seu nascimento, guardava as ovelhas do seu rebanho nos campos do monte de Ida, dizem as histórias humanas, que era objecto de seus cuidados Enone, uma formosura rústica daqueles vales. Mas quando o encoberto príncipe se conheceu e soube que era filho de Príamo, rei de Tróia, como deixou o cajado e o surrão, trocou também de pensamento. Amava humildemente, enquanto se teve por humilde; tanto que conheceu quem era, logo desconheceu a quem amava.

(Excertos do Sermão do Mandato do Padre António Vieira)

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Happiness

Why don't you stay
I feel lucky today
Give me a chance
and I'll show you the way

I know some day you'll be mine
you will know too
it's a matter of time

Oh! Let me hold your hand
Please, let your heart beat again

You know I daydream of you
I'm so in love
it's too good to be true

You make me smile
as I look into your eyes
My heart is full
like my very first time

It's like I was born again
I just can't say
how happy I am

Oh! let me hold your hand
Please, let your heart beat again

Música: Rodrigo Leão
Letra: Ana Carolina
Voz: Sónia Tavares

domingo, 27 de janeiro de 2008

Amor


Amor significa aprenderes a olhar para ti próprio,

Da mesma maneira que olhamos para coisas distantes,

Para ti és apenas uma coisa entre muitas.

E aquele que assim vê, cura o seu coração,

Sem o saber, de vários males -

Um pássaro e uma árvore dizem-lhe: Amigo.


Depois ele quer usar-se e às coisas,

De modo que permaneçam no brilho da maturidade.

Não importa se ele sabe o que serve:

Aquele que serve melhor nem sempre compreende.

Czeslaw Milosz (1911-1998)

Os amigos

Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor


José Tolentino de Mendonça

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Burn it Blue

Há vozes e músicas capazes de nos tirar o fôlego...




Burn this house
Burn it blue
Heart running on empty
So lost without you

But the night sky blooms with fire
And the burning bed floats higher
And she’s free to fly…

Woman so weary
Spread your unbroken wings
Fly free as the swallow sings
Come to the fireworks
See the dark lady smile
She burns…

And the night sky blooms with fire
And the burning bed floats higher
And she’s free to fly…

Burn this night
Black and blue
So cold in the morning
So cold without you

And the night sky blooms with fire
And the burning bed floats higher
And she’s free to fly

Y la noche que se incendia,
Y la cama que se eleva,
A volar…

And of the dark days
Painted in dark gray hues
They fade with the dream of you
Wrapped in red velvet
Dancing the night away
I burn…

Midnight blue
Spread those wings
Fly free with the swallows
Fly one with the wind

Y ella es flama que se eleva,
Y es un pájaro a volar
Y es un pájaro a volar
En la noche que se incendia,
El infierno es este cielo
Estrella de oscuridad

And the night sky blooms with fire
And the burning bed floats higher
And she ’s free to fly
Just a spark in the sky
Painting heaven and hell
Much brighter

Burn this house
Burn it blue
Heart running on empty
So lost without you


(Caetano Veloso e Lila Downs - banda sonora de Frida)

domingo, 20 de janeiro de 2008

sad eyes




Southern style

Things are slow
You're watching all the speeding cars
Moving like you wish you could
But oh, it's too bad
Cause they've drove away your happiness and good times

But I'm gonna get you into the light
And I'm gonna find a way that is right
And I'm gonna get you into the light
And make it okay

Sad eyes
You are the only one whose
Whose blue skies are gray
So don't cry
You'll be the only one to make them go away

You're so young
And so bored
You were staying out 'til late
Cause it was what your husband hated
But oh, it's too bad
Cause he's stolen all your happiness and good times

But I'm gonna get you into the light
And I'm gonna find a way that is right
And I'm gonna get you into the light
And make it okay

Sad eyes
You are the only one whose
Whose blue skies are gray
So don't cry
You'll be the only one to make them go away
Yeah you could make them go away

Took a lot of tears but all you had to find was
Sympathetic years, the ones you left behind yeah
Took a lot of tears but all you had to find was
Sympathetic years, the ones you left behind yeah

I'm gonna get you into the light
And I'm gonna find a way that is right
And I'm gonna get you into the light
And make it okay

Sad eyes
You are the only one whose
Whose blue skies are gray
So don't cry
You'll be the only one to make them go away yeah

Sad eyes (Took a lot of tears but all)
You are the only one whose (You had to find was)
Whose blue skies are gray (Sympathetic years, the ones you left behind)
So don't cry
You'll be the only one to make them go away
Things are gonna go your way
Yeah they're gonna go your way
Oh they're bound to go your way

(Josh Rouse)

ponderação

Após alguma ponderação e, confesso, para aliviar algum peso de consciência, decidi mudar o nome a este espaço. Continua, contudo, o azul!

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

uma espécie de aviso

Há pouco mais de dois anos, antes de fazer nascer o "letras", criei um outro espaço que baptizei como "um pouco mais de azul". Antes que nele inscrevesse o que quer que fosse, esqueci o nome e o caminho de acesso. Hoje, ao reler postagens antigas num blog amigo, deparei com comentários meus desse tempo. Decidi, por isso, fazer renascer este ser "blogosférico", que não pretendo que seja, por enquanto, mais do que um "depósito" aleatório de textos (sobretudo poéticos) e de músicas - só um pouco mais de mim, sem introduções, sem "aviso".


P.S. - Só gostaria de acrescentar que, na tentativa de encontrar o caminho, fui bater à porta de uma "casa" com o mesmo nome e que, entretanto, a autora "fechou".
A própria ou outros que a conheceram e conhecem pensarão certamente tratar-se de uma "apropriação" (à "sorrelfa"), mas, como já referi, tratou-se de mera coincidência - fácil de explicar, aliás: ambas usámos como mote os versos do poema "Quase" de Mário de Sá-Carneiro. Quando, hoje, reabri este espaço, não me ocorreu tal facto...

Espero que ninguém se ofenda!